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Palestra – Curitiba – 19/6/2003 – Congresso Brasileiro de Psicoterapia Corporal

por Rubens Kignel

"O que em mim sente
Sta pensando"
(Fernando Pessoa)

Caros colegas e companheiros do campo do desenvolvimento humano. Estou aqui nesta conferência para compartilhar um pouco do que reuni e aprendi sôbre as características da comunicação humana não-conscientes, que são extremamente significativas para o nosso trabalho em psicoterapia que utiliza o corpo, pois como veremos a comunicação não-consciente acontece quer queiramos ou não e muitas vezes aquilo que chamamos cura acontece além de nossa consciência, e quando nos damos conta o pássaro já está voando.

O etólogo e psicanalista Daniel Stern diz que apesar da importância destes eventos não está totalmente claro como eles funcionam. Quais são os atos e processos que fazem com que outras pessoas saibam que vocês estão sentindo algo muito semelhante ao que elas estão sentindo. Ou então como entrar na subjetividade de alguém sem usar palavras? Stern chama esta comunicação de "sintonia de afeto", que é um tipo de comunicação que vai além da imitação, porque além de não existir uma imitação que seja exata, uma imitação não basta porque não incluiria, por exemplo, a experiência subjetiva da mãe ou do adulto. A razão de serem tão importantes é que dessa forma podemos nos referir ao nosso estado interno e não só a uma imitação robótica do outro. O que faz com que a comunicação ressoe entre um fenômeno objetivo e subjetivo ao mesmo tempo. Se pudéssemos separar os dois chamaríamos de objetivo ao corpo físico, material, real que sente, percebe e se transforma, e de subjetivo ao corpo-alma com uma dimensão não perceptível que cria comunicação. Na verdade não parece haver uma dicotomia entre objetivo e subjetivo, ou entre sintonia e imitação, ao contrário, parecem só ocupar dois lados de um mesmo espectro.

Desta forma o filósofo português José Gil coloca assim:

"de uma maneira geral, todos os orifícios de entrada do corpo físico objetivo nos levam a um espaço indeterminado, sem contornos nem limites interiores. Em certo casos, como por exemplo nas psicoses, até mesmo os poros se tornam via de acesso ao interior. E o ato sexual, que implica em penetrar e ser penetrado, é por um lado vivido pelos dois parceiros como ocupação desse espaço, e ou por outro lado como qualquer coisa que tem a ver com o que se poderia chamar de "fluxo das almas"por contato, contágio e multiplicação de intensidades. Não é só biológicamente que o desejo tem a vocação de visar ao interior do corpo: é também porque ali se transformam os espaços e se encontra a alma, ultrapassando as fronteiras do objeto"

Já que estamos falando de comunicação não-consciente, partamos do princípio que alguma coisa acontece que não vemos, mas que age através de algum estímulo "psicomotor".

Chamaremos este estímulo de "força"ou "intensidade"que se manifesta impressa numa frase, num som, numa imagem, num corpo, num movimento, ou orgon como Reich chamava. Esta força ou intensidade parte sempre do interior do corpo de algum lugar não visível, que tocado sentiu e respondeu.

O desenvolvimento humano, após a fecundação, forma o embrião intra- uterino, e este embrião está carregado com energia e força que o transformarão num feto e num ser humano. As forças genéticas de desenvolvimento tem a expectativa e nascem para percorrer este caminho.

A relação conjunta e dinâmica das três camadas embriológicas entre si e com a mãe forma o ser humano. O ectoderma será o sistema nervoso central e os sentidos, o mesoderma se desenvolverá para o sistema muscular e sanguíneo e o endoderma para o sistema digestivo, respiratório e visceral. Em cada uma das camadas está contida uma potência, uma força, uma intensidade que trabalhando dinamicamente juntas formam uma intensidade única.

Em Biossíntese cada uma das camadas se transformará em potências essenciais da comunicação: o ectoderma será a base do conceito de "facing", ou seja, as qualidades de olhar e ser olhado no mundo, de passar e coletar informações; será a primeira ponte entre mundo interno e externo, que se percebe especialmente na pele; o mesoderma será a base do que chamamos de "grounding", ou seja, a qualidade de estar somaticamente, muscularmente, em contato com o mundo, enfrentando a fôrça da gravidade, e também sua relação de como o meio ambiente o apóia fisicamente; o endoderma se transformará naquilo que chamamos de "centramento", que vem da parte visceral do corpo, de onde partem as primeiras comunicações do bebê, de onde os primeiros "pensamentos"se formam, "estou com fome, frio, calor,"da qualidade da respiração e do funcionamento do diafragma.

Como vemos, cada uma das camadas carrega uma intensidade específica de comunicação: a de perceber o mundo, a de ação e movimento e a de centramento (emocional). As três qualidades deveriam trabalhar dinâmicamente em equilíbrio, mas o que vemos é que com a complexidade da influência da cultura, parto e educação, este equilíbrio dinâmico vai se perdendo e as pessoas vão se apoiando num tipo de comunicação que pode ser defensiva ou de ataque, luta ou fuga, que acaba se tornando a mais fácil e repetitiva, estabelecendo um caráter de comportamento, por exemplo pessoas acabam ficando com tendências mais racionais, ou tendências mais físicas de ação e movimento, ou com características mais emocionais.

Um dos objetivos de nosso trabalho é achar a conexão e o equlíbrio dinâmico entre os fatores físicos e subjetivos, que como vimos podem se perder no desenvolvimento. Por exemplo o ectoderma, ou a pele e os orifícios da visão, da audição, do som indicam que o subjetivo se encontrará além deles no fundo do corpo, ou dentro da pele, num espaço indeterminado que ocupa toda a superfície corporal. Se adotarmos a perspectiva do ponto de vista desta percepção interna, verificamos que, para cada sujeito, o espaço onde mais provavelmente situa-se o "eu"encontra-se justo por detrás do rosto, aparecendo a pele do rosto como a tela que separa o exterior do interior; habitamos esta parte interna do rosto, que é constantemente uma interface, pois percebemos parte do rosto realmente enquanto a outra parte mergulha na escuridão de onde vemos. Este local da pele é o primeira a se desenvolver já estabelecendo no útero uma separação entre mãe e feto, um interior e um exterior.

Esta zona limite, fronteira entre interior e exterior, ou espaço limiar, onde se encontra o que José Gil chama de "sujeito da percepção" ou a qualidade que em Biossíntese chama-se "Facing", que em parte se abre para o exterior e em parte olha para dentro, nas trevas invisíveis do interior. Nesta área do corpo é onde pode se desenvolver um tipo de couraça chamado de couraça cerebral, a nível cortical ou sub-cortical. O encouraçamento a nível sub-cortical pode levar a perturbações mais graves de comunicação, pois a energia fica ancorada num lugar anterior à consciência, já o cortical a um nível neurótico de bloqueio. O sujeito da percepção então capta as mensagens do mundo exterior e as interioriza. Esta interiorização da energia captada indo para o interior vai se localizar em partes físicas diferenciadas dependendo de suas qualidades.

O próximo local natural de desenvolvimento do corpo é a camada mesodérmica ou a musculatura, esqueleto e corrente sanguínea, que tomará diferentes características dependendo destas informações recebidas do exterior. Já não é aqui a pele que toca, mas o espaço interior ocupado pela musculatura, invísivel e sensível. Por exemplo, numa relação afetiva cada sujeito tende na imitação ou ressonância a adotar os gestos do outro, desta forma passa a ser esse próprio espaço interno que toca através de sua ação e movimento, indo além da pele, tocando sem tocar, sentindo sem tocar. O movimento passa a ser um devir exterior através do gesto, ou no mover-se como um todo que comunica a partir do invisível, a partir da alma contida na musculatura, que não pode ser vista do exterior. Este lugar da alma na musculatura vou chamar de "sujeito motor", aquele que se comunica a partir de sua mobilidade como um bailarino, um esportista, um ator. Olhar um corpo que passa vivo desta forma é como olhar o infinito, lugar que nos leva a uma profundidade, um desejo, uma imagem, um sonho, uma emoção. Toda a leitura corporal e caracteriológica de Lowen se desenvolveu encima deste sujeito, inclusive dando nome aos signos que o corpo forma a partir da musculatura. A energia pode ser armazenada e retida antes de ser descarregada, como é claramente descrito por Reich em couraça muscular. Isto também é explicado com detalhes sobre pressão osmótica exercida pelos fluídos do corpo nos tecidos musculares, com formações hiper ou hipotônicas no trabalho de Gerda Boyesen.

Além desse lugar, a energia captada ou enviada do exterior direciona-se também a uma parte mais profunda do corpo: o endoderma ou víscera. Mais acionada intra uterinamente e após o nascimento, quando o exterior se comunica diretamente através da alimentação e respiração, e o bebê responde comunicando-se a partir deste interior formando seus primeiros pensamentos. Esse lugar da alma chamarei de "sujeito emocional", especialmente conectado com a nutrição e a respiração. O trabalho de Gerda Boyesen sobre psico-peristaltismo desenvolveu toda uma teoria de couraça visceral a partir da tensão e relaxamento no intestino, atingindo o fluxo vegetativo entre o sistema visceral e o muscular. Assim o sujeito emocional pode desenvolver um sistema aberto ou fechado no abdomen. A respiração pode fluir de alto a baixo, ou pode se reter no peito ou abdomen, provocando diferentes tipos de respostas relacionais. Os comportamentos de sintonia sensitiva partem da forma como uma pessoa respira, como na música ou no canto, em que a relação com a respiração é importante, nós nos relacionamos também através da respiração, que é o ritmo que se forma entre nós para que possamos praticar a dança da comunicação ou diálogos respiratórios.

Assim distinguimos o corpo em três tipos de reservatórios energéticos de comunicação: pélvico-abdominal, muscular e cerebral. Os três contêm intensidades e forças latentes de comunicação, que aqui vou chamar de "potências do futuro". Assim as forças invisíveis são sempre potências do futuro, prontas a se atualizarem quando possível. As forças são a condição da diferença, isto é, são elas que irão romper com comportamentos repetitivos, e vão impor uma nova "figura" ao corpo, processo em Biossíntese chamado de transfiguração. Assim sendo a figura é o personagem que põe a força no sensível, e provoca o desenvolvimento do trabalho de "Posturas da Alma", de David Boadella.

O processo de transformação é o que lida com o movimento da forma, do signo, da leitura corporal, que é uma representação estática de uma forma de ser. As forças invisíveis que partem dos reservatórios energéticos da memória corporal é que vão disparar o constante processo de transfiguração. É um processo musical, em que a sintonia de afeto e a aliança terapêutica permitem acontecer. A música, a dança entre terapeuta e cliente vão começar onde a representação sígnica para. A música se atualiza no presente através do ritmo relacional, mas dentro do corpo ela é sempre potência para o futuro, sendo mais resistente à repetição. É claro que falo aqui da música criada e estimulada por terapeuta e cliente dentro da sala de ressonância em que a preocupação seria a não repetição de uma história patológica, ou a não reprodução de um mesmo disco. A figura aqui entra no lugar da representação ou do signo, levando a transbordar a significação passada, criando novas possibilidades,em direção a um processo de independência.

As forças invisíveis (contidas nas diversas camadas do corpo) contêm as feridas de cliente e terapeuta dentro da sala ressonante:

"O não pensado, conhecido"– identificação vegetativa – Christofer Bollas

"O inconsciente não vivido"– D. Winnicot

"Conhecimento somático"– identificação somática– Stanley Keleman

Durante o desenvolvimento da consciência, não-verbal ou pré-verbal o aprendizado se dá através dos cinco sentidos que produzem sensações apreendidas nos relacionamentos e que se comunicam através do movimento de expansão do self: no corpo e no espaço, desvendando relações, desenvolvendo necessidades e desejos.

Mas, afinal o que o sujeito mostra e o que se esconde nas relações?

Se o sujeito aparece somente através da pele, o "rosto"do corpo e toda uma vida subjetiva está no interior invisível do mesmo corpo ou do corpo do outro, pois então a pele nunca representa a totalidade do interior, portanto aquilo que se vê é sempre um equívoco, o perigo é então tomar-se o exterior pelo interior. O exterior que mostramos, o signo, a leitura corporal começa sempre por um equívoco, especialmente quando as indicações exteriores são tomadas como sendo a coisa mesmo, como no exemplo de José Gil:

"A tristeza naquele olhar não só está naquele olhar, mas é o olhar"

Portanto quer queiramos ou não estamos sempre escapulindo através do equívoco que provocamos no outro. É o olhar fugidio do bebê, às vezes de vergonha, quando percebe que está sendo olhado, observado, pois o bebê é a figura mais próxima do todo, que de acordo com a interferência da cultura, da educação, do treinamento, vai cada vez mascarando mais o que sente e se transformando numa figura mais complexa.

O equívoco não significa cegueira completa quanto a diferença entre a expressão e o expresso, o rosto é de certo modo o sentimento interior, de outro modo podemos dizer que ele o "traduz". Há uma encarnação do significado na expressão da pele, rosto e corpo. Porque nós reconhecemos nos traços do outro uma intenção para dar significado, mais do que isso, os traços trazem um significado, ou são um significado para aquilo que vemos. O rosto e o corpo são uma produção de signos e portanto conseqüentemente de subjetividade.

Como compreender um corpo sem pele, ou uma cabeça sem face, as significações não seriam possíveis nem imagináveis sem um "rosto"que as mostre e sem uma subjetividade que as ancore.

Para cada "sujeito", o espaço onde se situa o "eu"é aquele de onde olha, ouve, se ouve, movimenta e sente. O corpo é todo um complexo de onde vem a comunicação, é uma entrada entre exterior e interior. Nós sempre temos a impressão que o eu está situado no interior e praticamente não nos vemos quando nos comunicamos, somente percebemos algumas partes físicas. Apesar de meu corpo estar exposto à luz, eu não o vejo por completo. Mas, assim mesmo há uma correspondência entre o cenário exterior e o meu interior que se estabelecem na superfície do corpo. O cenário se projeta sobre o corpo de uma forma dinâmica, e através da pele se imprime em meu interior. Para entender essa possibilidade voltamos a Daniel Stern e a intersubjetividade, a osmose aqui passa a significar os investimentos de afeto do bebê sôbre a mãe que os reflete como resposta e vice-versa, o que significa que meu corpo, minha cara, ganham um significado a partir da relação com o outro, eu não me vejo em mim mesmo, mas sim na cara, no corpo dos outros eu vejo minhas relações e como as estabeleço.

O perigo desta capacidade de se ver e ser visto nos outros faz com que desenvolvamos uma forma de escapulir, formando máscaras representativas, que nos dão múltiplas possibilidades, assim sendo as máscaras vão se tornando rígidas e cada vez mais complexas. Complexidade que está a serviço de rejuntar, religar os diversos pedaços da subjetividade para que o eu se sinta mais uno e menos fragmentado.

Quando trabalhamos terapêuticamente na complexidade do ser humano, exploramos através das sintonias de afeto e ressonância a possibilidade de tornar o invisível visível, ou o visível invisível, conforme a necessidade, assim como a arte que pinta o invisível ou o deixa perdido em sua abstração.

O processo terapêutico está aí para que retomemos o contato o mais próximo possível de nossa existência essencial, e o trabalho que se desenvolve a nível não-consciente talvez seja o que mais se aproxima desta possibilidade assim como a psicanálise trabalha com as associações livres para tornar o invisível inconsciente em consciente.

"Os comportamentos de sintonia, por um lado, remodelam o evento e mudam o foco de atenção para o que está por atrás do comportamento, para a qualidade do sentimento que está sendo compartilhado. É pelas mesmas razões que a imitação é a maneira predominante para comungar ou compartilhar os estados internos. Em verdade todavia, não parece haver uma dicotomia real entre a sintonia e imitação; pelo contrário, elas parecem ocupar dois extremos de um espectro." Daniel Stern.

Bibliografia:

  • Boadella, David – Correntes da Vida – Ed. Summus
  • Deleuze e Guatarri, Mil Platôs – Ed. 34
  • Gil, José – Metamorfoses do Corpo
  • Stern, Daniel – O Mundo Interpessoal do bebê