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Mecanismos de Memória e o Processo Psicoterapêutico

Mário Márcio Negrão - Psicoterapeuta, Neurologista e
Jaime Canfield - Massoterapia

INTRODUÇÃO

Se formos rever nossas experiências, lembraremos que muitas ocorrem acompanhadas por decisões de natureza mais imediatista, ou reflexa, que acontecem quase sem pensar. Outras exigem mais tempo e reflexão, parecendo seguir um propósito ou meta. Ao que parece, a natureza não se contentou em criar biomecanismos capazes de reagir a estímulos presentes, e foi logo empenhando-se em criar seres mais evoluídos, capazes de abstrair dados não só do agora, como também do futuro e do passado. Planos e pensamentos resultam da confluência da realidade presente, com situações semelhantes já vividas. Essas computações apóiam decisões, surgindo como previsões e expectativas.

Uma característica essencial dos seres mais evoluídos é a capacidade de aprender e lembrar o que foi aprendido. Quando um estímulo pode ser representado dentro do sistema nervoso, há mais tempo para a análise de suas propriedades. Os invertebrados vivem reflexamente, endereçando-se apenas ao presente, porque sua capacidade de reter uma representação, depois de cessado o estímulo, é muito baixa, sendo apenas suficiente para disparar um mecanismo reflexo. Por essa razão, seu comportamento exibe pouca flexibilidade para mudanças ditadas pelo contingente, mostrando assim um baixo grau de adaptação.

Viver, no entanto, depende de poder navegar por um mar de incertezas e, se pudermos guardar nossas experiências como referência, uma rota pode ser traçada. Experiências são armazenadas como representações. Como as representações são todas mneumônicas, não há aprendizagem sem memória.

REPRESENTAÇÕES

Há quase meio século Hebb e Konorski tiveram a idéia de que a memória, a emoção e o pensamento devem-se à atividade de assembléias celulares, nas quais diferentes neurônios estão conectados em circuitos que só são efetivos enquanto ativos.

“Quaisquer duas células ou sistema de células repetidamente e simultaneamente ativas tenderão a formas associações, de tal modo que a atividade de uma estimula a outra.”

A efetividade tanto pode ser devida a um aumento de excitabilidade da assembléia, quanto por uma mudança estrutural permanente da sinapse. Memórias podem ser transitórias ou permanentes, podendo inclusive passar de um estado para outro. Elas são guardadas em acervos, que são polimodais e hierarquicamente organizados em níveis.

O comportamento adaptativo depende então da memória criada pela experiência e adquirida pela aprendizagem. As representações assim formadas dependem de assembléias celulares associadas pelo disparo simultâneo e repetido, que pode causar um aumento transitório da excitabilidade ou aumento permanente do peso sináptico.

ACERVOS DE MEMÓRIA

O aprender é uma mudança adaptativa no comportamento, ditado pela experiência e que tem um peso, conforme sua relevância em relação ao comportamento. O processo de armazenar e resgatar vivências de natureza cognitiva, gestual ou emotiva é chamado de memória.

O modelo que norteia a maioria das discussões sobre a memória é o modal, que significa a existência de estruturas definidas (modos), onde diferentes tipos de informação podem ser processados, e poderiam ser chamados de acervos. Em relação à memória, três tipos podem ser distinguidos: Acervo de duração imediata, Acervo de duração curta e Acervo de longa duração.

ACERVO DE DURAÇÃO IMEDIATA

É um acervo de sensações, também conhecido como memória sensitiva ou traço de memória. Circuitos locais nos córtices sensitivos primários dos sistemas visual, auditivo, tátil, gustativo e olfativo permanecem ativos por breves períodos (um segundo para estímulos visuais e até três segundos para estímulos auditivos), mesmo depois que o sujeito não está mais atento, ou o estímulo cessou. A função desses acervos sensitivos é manter a informação sensitiva ativa nos seus circuitos representativos pelo tempo suficiente para processar informações básicas. A isso chamamos de sensação.

O sistema visual, por exemplo, apresenta uma memória para ícones, que são representações visuais isentas de significado, persistindo por aproximadamente um segundo. No seu primeiro terço de segundo, depois de cessado o estímulo original, as imagens (representações) já começam a perder sua definição, para desaparecer nos dois terços seguintes. Esses ícones podem ser usados para atividade reflexa, como acontece no rastreamento ocular, ou enviadas “para cima” na hierarquia, para adquirir o caráter de percepções ou cognições, se forem mais alto ainda.

O sistema auditivo também retém traços sonoros, chamados de memória ecóica, que persiste por um tempo maior, geralmente em torno de três segundos. Apesar de estar representando uma variedade de estímulos a todo momento, o acervo sensitivo tem uma vida curta. O acervo sensitivo pode ser comparado a um tear de Penépole, que apresenta seu conteúdo multimídia, trocando de imagens a cada segundo e de sons a cada três segundos.

ACERVO DE CURTA DURAÇÃO

Também conhecido como memória a curto prazo ou memória operante. A informação selecionada que é retida nesse sistema é de maior duração do que o do anterior, e foi escolhida das mais variadas opções do acervo sensitivo daquele momento, por apresentar uma destas duas qualidades: a de se originar de um estímulo particularmente forte e persistente ou por ter sido antecipada na forma de uma facilitação predeterminada.

Recentemente Baars (1997) visualizou um espaço global de trabalho, no qual circuitos locais formam “grupos de especialistas” que competem pela atenção do sistema tálamo-cortical (Newmann, 1996), que seleciona grupos “ad hoc” do acervo operante para tarefas cognitivas, gestuais e emocionais. Esse espaço global de trabalho foi proposto como uma matriz para a consciência e o comportamento. Talvez uma metáfora aproximada seria comparar essa visão com a imagem que ocorre quando lembramos da frenética atividade da bolsa de valores, onde grupos se formam e desformam, forjando alianças conforme a necessidade, mas ao mesmo tempo ficam em contato com os mecanismos controladores que administram planos de longo e médio prazos.

A informação que alimenta esse sistema vem de fontes externas, na forma de estímulos sensitivos, ou internas, provindas do acervo de conhecimentos (memória a longo prazo). Estas duas vertentes criam um fluxo constante de pensamentos, gestos e sentimentos que constituem o pano de fundo de nossa existência diária.

ACERVO DE LONGA DURAÇÃO

Esse acervo de conhecimentos é também chamado de memória de longa duração. Essas representações contêm tudo o que sabemos. É a memória, assim como imaginada pela maioria das pessoas.

Como as sensações são modalidade-específicas também o são os circuitos do acervo de conhecimentos. Duas classes são descritas: Memórias Declarativas, para fatos e eventos, e Memória de Procedimentos, para os atos motores. Ambas possuem sistemas distintos para o controle horizontal (gânglios da base para procedimentos e hipocampo para memórias declarativas).

SISTEMAS DE MEMÓRIA

As assembléias celulares, responsáveis pela armazenagem e o resgate de memórias, são feitas de sinapses que compõem os circuitos locais e as áreas locais.

Sua organização obedece a princípios tanto verticais quanto horizontais. O primeiro refere-se às estruturas que definem uma representação, enquanto o segundo refere-se aos processos que controlam o fluxo dessas informações entre os acervos. Existem sistemas que são responsáveis pela estrutura física de uma memória (sinapses, circuitos e áreas), enquanto outros deslocam esses sistemas distribuídos entre os acervos (criação e resgate de memórias).

SISTEMAS VERTICAIS

A organização vertical do sistema de memórias obedece aos mesmos princípios da organização vertical em geral, como é vista no resto do sistema nervoso como a especificidade funcional e divisão em níveis hierárquicos, de complexidade progressiva.

O nível mais baixo é o celular, em que a dupla RNA e DNA serve como “memória” para o correto sequenciamento de aminoácidos, durante a síntese protéica. Esta função é comum a todas as células, podendo até ser chamada de “memória revolucionária”.

Nesse nível é a sinapse, que pode tanto se encontrar nas espinhas dendríticas quanto nas extremidades do axônio, que constitui a unidade básica. As membranas pré e pós-sinápticas possuem canais e receptores através dos quais fluem moléculas e íons, criando os campos bioelétricos responsáveis pela atividade daquela sinapse.

Os neurônios têm muitos dendritos, cada qual coberto por espinhas dendríticas (sinapses). Durante sua atividade normal, cada um possui um número imenso de espinhas dendríticas, podendo criar mais, se necessário. No entanto, é quase impossível o neurônio tentar utilizar todos de uma só vez. Ao invés, diversas espinhas, algumas adjacentes e outras distantes entre si, são ativadas quase simultaneamente, como luzes piscando numa árvore de Natal, formando um sistema distribuído transitório, chamado de microcircuito, que possui um significado. Se essas sinapses pulsarem ativadas dessa forma por algum tempo, ficarão “facilitadas”, o que quer dizer que, na próxima vez que o estímulo aparecer, o limiar de excitabilidade daquele circuito estará mais baixo, sensível a estímulos de menor intensidade. Podemos dizer que este circuito “aprendeu” alguma coisa.

É importante lembrar que as membranas sinápticas podem sofrer influência de níveis superiores. Uma mente atenta pode refinar a capacidade de um receptor, ou seja, quanto maior é a vontade, mais aguçado é o olhar.

Circuitos de memória estão distribuídos pelo córtex cerebral na forma de colunas verticais de neurônios (Calvin, 1995), geralmente em seis camadas. Colunas de funções semelhantes tendem a ficar adjacentes. Os microcircuitos dessas colunas se interligam para formar circuitos locais, tanto entre as seis camadas quanto entre as colunas. A todo um conjunto de microcircuitos e circuitos locais possuindo funções semelhantes chamamos de área local. São as conhecidas regiões que estudamos em anatomia e chamamos de áreas corticais, que compartilham estímulos ou funções semelhantes. Na área cortical responsável pelo processamento de estímulos táteis, por exemplo, as colunas que processam a sensação de textura e o grau de umidade de um tecido estão interligadas e próximas.

Num nível superior de complexidade, as representações das áreas mais diversas em função emprestam suas colunas para a formação de sistemas distribuídos transitórios, códigos feitos por sinapses ativadas que traduzem experiências vividas em aspectos mais diversos, como o cognitivo, o motor e o emocional, unidos numa “gestalt”, chamada de esquema (Montagem) por Westermeyer, que são responsáveis por eventos mnemônicos, como por exemplo lembrar de uma cena da infância desencadeada por um cheiro.

Esses esquemas são estruturas hierarquicamente organizadas, nas quais uma crença central é cercada por regras que testam e confirmam tal crença. As regras são protegidas por comportamentos protetores. Todo este sistema gera pensamentos e comportamentos automáticos que aprovam e confirmam essa crença. Em torno dessa crença e de regras, atitudes como perfeccionismo, inautenticidade e distanciamento reforçam esse conjunto, que atua como um filtro, modulando os pensamentos, gestos e sentimentos do comportamento do momento.

SISTEMAS HORIZONTAIS

Sistemas de memória verticais armazenam experiências representadas. Sistemas de memória horizontais administram a formação de novos sistemas distribuídos, assim como a seleção de sistemas pela atenção, para o resgate. A organização horizontal manipula informação de um acervo para outro, passando informação do acervo das sensações para o acervo das atenções, formando a memória operante, que também recebe entradas do acervo de longa duração, através do resgate de conhecimentos de experiências prévias.

A organização horizontal de memória exerce suas funções através de três tipos de controle:

Atenção – Este é o processo que determina qual informação passará do acervo sensitivo para o operante. Seu manejo é pelo sistema tálamo-cortical.

Codificação – É o movimento da informação do acervo operante para o acervo permanente. Este processo é administrado pelo sistema hipocampal, para memórias declarativas e gânglios da base para memórias de procedimento.

Resgate – É o que chamamos de lembrar ou recordar. Constitui a passagem de informação do acervo de conhecimento para o operante. É viver no presente, temperado pela experiência.

APLICAÇÕES PRÁTICAS

Crenças disfuncionais ligam a realização de tarefas à ansiedade, medo, culpa e vergonha. Por definição, uma crença disfuncional está mais direcionada para a tarefa de apoiar uma teoria que o sujeito tem sobre si mesmo do que de lidar com as realidades que a contingência traz. A gênese dessas crenças é sempre devido a uma experiência traumática da infância, na qual a ansiedade, o medo, a vergonha ou a culpa constituem a relevância emocional daquele incidente.

Existem inúmeras abordagens psicoterapêuticas que, apesar de sua diversidade, conseguem resultados às vezes comparáveis, indicando talvez que todas estejam operando dentro dos mesmos princípios, usando apenas técnicas diferentes. Se concordarmos que a maioria dos métodos “bem sucedidos” endereçam-se a crenças básicas assim como sua modificação, podemos dizer que esses processos psicoterapêuticos terão uma chance melhor do que os outros.

Uma crença básica, disfuncional ou não, é antes de mais nada um fenômeno mnemônico.

Tomando em conta a estruturação morfológica dos sistemas de memória, alguns princípios básicos devem ser lembrados:

  • As representações de memória de longa duração são sempre feitas de sistemas distribuídos, de natureza polimodal. São constituídos por memórias declarativas, de procedimentos e emocionais alinhavadas por palavras, gestos e sentimentos-chave. Quando esses têm força ou persistência suficiente, são incluídos no espaço global de trabalho, para servir de referência ou “filtro” para a cognição e tarefas do momento.
  • O princípio da facilitação, representado em nível sinápitco por uma diminuição do limiar da excitabilidade e, no cenário clínico por conotação positiva, reforça a aprendizagem Hebbiana, caracterizada por facilitação induzida por persistência de estimulação.
  • Um outro princípio importante é a inibição lateral, representado em nível de microcircuitos por uma orla, que é quase uma membrana, apresentando um limiar elevado de excitabilidade, o que impede os impulsos de “escaparem” no sentido lateral. No cenário clínico, talvez a inibição lateral esteja representada pelos limites semânticos e comportamentais, tão comuns no processo terapêutico. Nesses casos, os limites e a inibição lateral têm uma função focalizadora de idéias e comportamentos.

Um dos recursos mais usados pelo sistema nervoso central é a comparação entre representações provindas da mesma fonte de estímulo, apresentando entre si intervalos de tempo ou de pontos de vista. Se duas imagens se sobrepõem, é sinal de que a fonte permanece como estava. No caso das imagens se contraporem, é um sinal de que existem discrepâncias entre essas representações, assinalando ao sistema nervoso que algo mudou. O sistema visual, por exemplo, está sempre comparando a imagem do instante anterior com aquela do presente. Enquanto elas se sobrepõem, a cena não incluída no espaço global de trabalho, por não pertencer ao acervo das atenções. Se uma cobra estiver perante um alvo imóvel, ela ficará parada também, ou interessada em outra coisa qualquer. Se num primeiro instante o alvo estiver parado e no segundo ligeiramente deslocado para a esquerda, uma discrepância é detectada e a cobra desloca-se na mesma direção e distância. Sistemas verticais definem que é a visão que está sendo apreciada e que o alvo pode ser estudado por suas propriedades como contraste, cor, luminosidade, etc.

Talvez isso não seja tão diferente de quando enumeramos as propriedades de uma situação e agimos por conta do que é discrepante. Quando um apartamento é arrombado, a primeira providência é fazer um inventário. As medidas serão tomadas em função dos valores que faltaram.

Às vezes essas operações são dirigidas por estímulos externos, e o organismo exibe um comportamento. Se as referências são predominantemente internas, o que resulta é o pensamento. Impressões e conclusões são nossos passos internos. Nossas memórias, quando sobrepostas à cognição presente, indicam a próxima virada no caminho.

Processos de memória estão intimamente ligados à consciência. Na verdade, uma não pode existir sem a outra. Depois de se definir um circuito local, é preciso saber o que fazer com ele. Em termos de memória, isso significa passar informação do acervo de longa duração para o operante. Operações horizontais de controle como a atenção, codificação e resgate devem estar implicadas em pacientes com amnésia, ou, mais sutilmente, naqueles com dificuldade de resgatar experiências prévias e usá-las como ferramentas para a compreensão e o planejamento.

Do ponto de vista clínico, é importante lembrar que o acervo de longa duração está localizado difusamente pelo córtex cerebral, principalmente nas áreas associativas visuais, somestésicas, auditivas e motoras. É provável que aquela parte do acervo de conhecimentos ligados a processos mais abstraídos, como o pensamento, ocorra no córtex pré-frontal. O resgate dessa informação pode vir através da atenção distrativa, quando a intensidade e/ou persistência do estímulo eleva o circuito local a níveis de disparo acima do ruído de fundo, ou pela atenção seletiva, quando memórias são recuperadas por operações de sobreposição-contraposição ou pelo puro exercício da vontade.

A aquisição de novas memórias, por outro lado, depende de sistemas verticais e horizontais diferentes. Pacientes com lesões na região média do lobo temporal, assim como no córtex hipocampal, não apresentam problemas para resgatar memórias declarativas ou de procedimentos, mas adquirem novos conhecimentos com muita dificuldade.

Assim como a energia dominante que resgata informação do acervo de conhecimentos é a atenção, é a relevância que domina o aprender. Por relevância queremos dizer a importância relativa que um estímulo pode ter, dentro do contexto atual. Uma energia que representa muito bem essa grandeza é a emoção, que dá peso a uma experiência, dando a ela razões que nem sempre concordam com nossa lógica habitual. Quando executamos operações de sobreposição-contraposição, entre a lógica e o sentimento, usando itens selecionados do acervo de conhecimentos como referência, uma sintonia melhor é conseguida, o que ajuda no processo de codificação, que é, como já vimos, a passagem da informação do acervo operante para o de conhecimentos, a lição aprendida.

Acreditamos, portanto, que o conhecimento dos mecanismos neurobiológicos relativos à memória devem fazer parte do acervo de conhecimentos dos psicoterapeutas. Quase todos já são aplicados de maneira intuitiva, porém conhecê-los melhor e aliar esse saber com as informações novas sobre o assunto, que aparecem num fluxo cada vez maior na literatura, prepara-nos para os avanços que certamente virão.

Em Resumo:

Existe uma base morfológica para a representação de memórias, que são grupos de sinapses simultaneamente ativadas, localizadas geralmente em espinhas dendríticas, chamadas microcircuitos, que se organizam numa escala maior, como circuitos locais e sistemas distribuídos. Colunas de neurônios, organizados verticalmente em seis camadas, definem propriedades funcionais, como a cor de um objeto, por exemplo. Os impulsos que passam entre os níveis de uma coluna caminham por circuitos locais. Vários circuitos locais que definem propriedades semelhantes e que sejam adjacentes constituem uma área local, que possui funções específicas. Os circuitos locais que examinam o peso e a textura de um lápis, por exemplo, estão na mesma área somestésica primária, em colunas diferentes.

Representações de memórias podem adquirir um caráter polimodal, quando os circuitos locais de diversas áreas são temporariamente reunidos num sistema distribuído, formando uma “gestalt” constituída por recordações cognitivas, gestuais e emocionais.

Sistemas verticais garantem a representação da memória, definindo suas propriedades através de abstrações que atravessam níveis progressivos de complexidade. Memórias assim guardadas constituem acervos, que diferem entre si principalmente pelo tempo em que os circuitos relevantes são ativados.

Circuitos locais, ativados pela atenção distrativa ou pela seletiva, incrementados pela relevância emocional, transformam a memória sensitiva em memória de curta duração ou operante, que constituem a matriz de nossa experiência cognitiva, gestual e emocional. A coleção de circuitos e áreas locais ativadas, representando experiências assim selecionadas e relacionadas com a tarefa em mãos, é que compõe nosso acervo de experiências, ou memória operante.

Sistemas horizontais deslocam memórias entre os acervos. O sistema tálamo-cortical é responsável pela atenção e pelo resgate, enquanto o sistema hipocampal cuida das memórias declarativas, e os gânglios da base administram memórias de procedimento.

Do ponto de vista prático, existem razões para tentar aplicar conhecimentos sobre a estruturação e organização da memória no cenário clínico. A natureza polimodal dos sistemas mnemônicos, assim como a facilitação, inibição lateral, sobreposição-contraposição e operações como resgate, atenção e codificação constituem poderosas ferramentas clínicas, já usadas intuitivamente pela maioria dos psicoterapeutas.