por Guilherme Velloso e Maria Wilma Chiorlin Velloso
CARTA ABERTA: REFLEXÕES DE UM PROFISSIONAL DE ÊXITO
"Foi complicado para mim, mas acabei entendendo que as pessoas enfrentam o mundo social armadas com suas defesas, e por meio destas é que se relacionam. Entendi, ainda, que estas defesas têm nomes como resistência, cristalização, fixação, personagem, persona, neurose, couraça e outros que não lembro. Pude perceber que, nos meus relacionamentos, existem coisas como medo, raiva, ódio, poder, status, desconfiança e inúmeras outras a que jamais dei importância. No entanto, o significado de coisas como estas tem crescido em importância para mim, pois descobri que está inserido na compulsão que tenho de tentar controlar todas as circunstâncias que me envolvem, para alcançar minha segurança interior.
Sei que desenvolvi essas defesas quando tive que enfrentar situações difíceis, especialmente na minha infância, e me foram úteis na época. Hoje, adulto, deixaram de ser. No entanto, tenho me perguntado como coisas assim que deixaram de ser necessárias podem continuar me influenciando? Por que ainda estão em mim? Por que não consigo delas me livrar? Por que estão fora do meu alcance? Por que fogem do meu controle e as repito compulsivamente?
Durante esse tempo em que venho tentando entender-me tenho descoberto muita coisa a meu respeito. Ao longo de minha existência, desenvolvi padrões relacionais e reacionais à medida que enfrentava situações de configurações diversificadas que nunca se repetiram, entretanto fui padronizando aquela de configuração semelhante. Assim, completou-se em meu interior um padrão de respostas para cada uma das referidas situações semelhantes. Hoje sei que repeti esses padrões tantas vezes, que se transformaram em respostas automáticas, das quais já não tinha (em muitos casos ainda não tenho) clara consciência. Eu poderia avaliá-las se agüentasse colocá-las na mesa e até eliminá-las quando mais conscientes. No entanto, colocá-las às claras significa expor minhas fraquezas, admitir minhas imperfeições e aceitar que isso tem sido muito difícil para mim. Ainda persisto na solução de sempre: tento ocultá-las. Contudo sei que ocultá-las significa atuar, desempenhar um personagem, ser aquilo que não sou, ou seja, não ser eu mesmo.
Esses padrões que me induzem a respostas automáticas compõem aquilo que os psicoterapeutas chamam de personagens. Hoje já conheço alguns dos meus personagens. Um deles é o submisso, pois muitas foram as situações em que tive que me submeter para continuar vivo. O outro é o bonzinho, derivado do primeiro. Com o personagem submisso consegui sobreviver, mas com o bonzinho consegui apoio e algum destaque, então este também passou a fazer parte de minha vida. Descobri ainda o personagem que uso mais freqüentemente, o autoritário. Certamente, dentre os achados desta caminhada, descobrirei outros de meus personagens, mas isto não é o mais importante. Embora saiba que meus personagens ajudaram-me a sobreviver, também sei que eles são simultaneamente meus algozes, porque funcionam como prisões internas, impedindo-me de ser plenamente o que sou. Hoje, muito mais sensível, percebo nas pessoas sentimentos muito semelhantes aos meus, embora a maioria delas não admita isso. Entendo que esses tipos de sentimentos e emoções determinam em mim uma configuração tal, que grande parte da energia de que disponho para viver acabo utilizando em defesa de meus personagens.
No caminho dessas auto-descobertas percebi que, dentro das organizações em que trabalhei e em que trabalho, tais defesas eram e são amplamente reforçadas pelo ambiente organizacional. Agora entendo porque as pessoas investem alto no desenvolvimento de seus personagens. Diante de tão inadequados reforços, torna-se usual o fato de as pessoas desejarem que seus personagens se destaquem e desfrutem de uma imagem invejável. Apesar de meu empenho para lidar melhor com o que venho descobrindo a meu respeito, ainda me expresso como as outras pessoas, mas a cada descoberta comprovo que não sou meus personagens, da mesma forma que cada pessoa não é o personagem que desempenha.
O investimento maciço dos outros em seus personagens poderia levar-me a alguns questionamentos, como: "Se os outros agem dessa forma, por que estaria eu me questionando?" "Por que não continuo meu caminho?" Entretanto, este tipo de reflexão pode configurar uma armadilha e chego a pensar se esta não é apenas uma desculpa para me fazer desistir de tal empreitada. O que me leva a persistir é o fato dessa coisa doente estar em todos os lugares, em minhas roupas, em meu carro, em meus projetos, em meu emprego, em minha família, em tudo. Parece que meus personagens fazem parte de minhas vísceras, estão debaixo de minha pele, me dominam e já nem sei ao certo quem sou eu, já nem sei qual é minha verdadeira essência.
Sinto certa desconexão da realidade, parece que estou desconectado de mim mesmo ou da realidade que sou eu. Li outro dia uma frase que me deixou perturbado. A frase dizia: "Quando eu não estou possuído de mim mesmo, fico perdido, não tenho paz, vivo um semimorto, não tenho harmonia em meu interior nem nas relações. Não tenho abertura para aprender. " É exatamente assim que me sinto. Parece que perdi toda motivação para aprender. Fico ancorado naquilo que consegui. Permaneço agarrado ao meu passado de êxito profissional, um êxito que não me trouxe prazer nem satisfação interior. Sinto que pareço uma espécie de robô programado por mim mesmo.
Esta é a primeira vez que estou tentando entender-me e participando verdadeiramente do meu processo de vida. Por exemplo, nunca havia pensado na amplitude do meu corpo. Na realidade, descobri que eu não tenho um corpo, mas sou o meu corpo, porque antes eu levava meu o meu corpo ao médico da mesma forma que o meu carro ao mecânico. Hoje sei, sinto e vivencio uma grande verdade: "É através do meu corpo, e só através dele, que sou o que sou, que posso fazer tudo o que faço nesta vida. Só sendo um corpo é que posso participar de trabalhos, diversões, viagens, enfim, que posso participar da vida."É através da minha existência corporal e não dos meus personagens que posso tocar e amar. Só me tornando o corpo que sou é que poderei recuperar, incorporar e aprender algo de mim mesmo. Só assim poderei relembrar verdadeiramente o que sou e redesenhar a minha própria existência em todos os sentidos. Opto por isto ou continuo a minha caminhada como um ser vivendo uma anti-vida."
ASSINADO: UM PROFISSIONAL EM BUSCA DE SI MESMO
Tudo o que vivemos mostra inúmeros aspectos sutis que permeiam qualquer relação pessoal ou profissional e nosso método consiste em cuidar desses aspectos tão sutis. É impossível melhorar a relação com o outro sem melhorar antes a relação conosco. O corpo tem servido em nossa sociedade, especialmente nas organizações, somente para ser vestido, alimentado, valorizado ou desvalorizado em termos de um padrão de beleza previamente estabelecido. Tem servido ainda para carregar nossa tão valorizada cabeça. Como talvez pudesse dizer o Profissional em busca de si mesmo, meu corpo também tem servido para que eu possa vestir personagens que não fazem parte de mim mesmo.
Nas organizações, assim como na família, sentimentos e emoções como entusiasmo, fé, alegria, força, coragem e tantos outros não são valorizados, embora se deseje. Existe muita confusão em relação aos sentimentos e emoções expressados por seus integrantes. Alegria é vista como falta de seriedade e como imaturidade. Sisudez é encarada como seriedade, compenetração, responsabilidade. Tristeza e choro, como inadequados ao meio organizacional e difíceis de serem suportados pelos próprios profissionais. Autoritarismo é confundido com pessoa decidida. Submissão, obediência, subserviência são encaradas como comportamentos adequados. Neste ambiente tão incoerente e inóspito é possível haver harmonia?
É em ambientes como esse, tão comuns nas sociedades organizacionais, que os profissionais se arrastam até a aposentadoria. Quem se arrasta até um ponto qualquer pouco pode contribuir. Seu potencial fica perdido pelo caminho. Como afirma Stanley Keleman, fisioterapeuta de renome internacional: "São as emoções e os sentimentos que movem os fluidos orgânicos de uma parte a outra do organismo e sem eles não haveria vida. ". Analogamente, são as emoções e os sentimentos que motivam os seres humanos em todos os sentidos e sem eles não há motivação nem para viver. Esta é mais do que uma razão para a Terapia Organizacional resgatar o corpo dentro das organizações, já que ele é a sede das emoções e dos sentimentos. É somente através do corpo que o indivíduo realiza coisas no mundo e recupera seu próprio significado como ser humano. Por estes motivos a Terapia Organizacional visa alcançar, primeiramente, a integração do indivíduo com ele mesmo, ajudando-o a descobrir, pouco a pouco, cada vez mais a respeito de si mesmo. Integrado com ele mesmo, pode então agir integralmente com sua equipe de trabalho.
Quanto mais entendemos acerca de nós mesmos, mais descobrimos que a saída para alcançar uma harmonia mais efetiva passa pela atitude de ajuda mútua, ou seja, o crescimento de um indivíduo só tem sentido se incluir o outro. Somente ajudando o outro é que ele poderá, realmente, ajudar a si mesmo e crescer . A partir dessa mudança no interior de cada um, a reciprocidade construtiva pode ganhar espaço, já que a reciprocidade destrutiva tem um espaço ilimitado dentro das organizações. A harmonia não acontece por acaso, uma vez que seu alcance e manutenção são de responsabilidade de todos e depende da ajuda mútua de todos os envolvidos.
Somos energia concentrada num determinado estado e é isto o que nos dá esta forma e a vida que temos aqui e agora. Para sermos plenamente o que somos, nossas energias necessitam fluir naturalmente. Contudo, nossas couraças impedem ou dificultam a harmonia desse fluxo, fazendo de nós seres artificiais. A artificialidade está no fato de utilizarmos nossas energias primordiais para nos defender e não para viver harmoniosamente com as pessoas e com a natureza. Assim, nos contentamos com uma anti-vida. Para vivermos nossa verdadeira vida, para deixarmos de ser mortos-vivos, para deixarmos de viver a morte pensando estar vivendo a vida, para fluirmos plenamente dentro do papel profissional e dentro de todos os outros papéis que desempenhamos, precisamos desbloquear as energias de vida que estão presas em nossas couraças.
Coração fechado é o que mais encontramos nas empresas. O clima é de desconfiança. Todos em guarda, em estado de permanente alerta, em guarda. Ninguém relaxa. Ninguém se descuida. Ninguém pode ser verdadeiro, quem foi já se prejudicou. Confia-se desconfiando. Não sabemos o que vão fazer com nossas informações. Podem utilizá-las contra nós. Então temos que esconder nossa essência dentro de nosso coração e trancar nosso peito. Não podemos nos abrir para não nos tornarmos vulneráveis aos outros, nossos inimigos. Infelizmente também nossos parceiros de trabalho. Temos que manter nosso coração fechado.
Peito trancado impede respirações torácicas adequadas e é por isso que, dentro das organizações, poucas são as pessoas que respiram no peito. A respiração, em geral, concentra-se no abdômen, região que expressa ânsias pelo poder, pelo domínio, pelos mandos e desmandos, pelo status , pela concentração de dinheiro, pela acumulação de bens, pela aparência e não pela realidade. Para alcançar harmonia no trabalho é preciso harmonizar, antes, cada participante consigo mesmo, depois com o outro e, a partir daí, conseguir melhorar o nível de harmonia grupal.
Encontramos alguns conceitos de harmonia:
- Harmonia é a consonância ou sucessão agradável de sons.
- Harmonia é a disposição ordenada das partes de um todo.
- Harmonia são sons consonantes gratos ao ouvido.
- Harmonia é a ciência ou arte que ensina a dispor os acordes.
- Harmonia é a teoria das relações entre os sons dentro de um determinado sistema musical.
Harmonia, para Leibniz, filósofo, é o acordo estabelecido por "Deus" entre as mônadas, o qual explica a ação recíproca de umas sobre as outras pela correspondência predeterminada entre suas leis de desenvolvimento interno.
Harmonia, para a Terapia Organizacional, é a interação construtiva dentro do equilíbrio dinâmico do fluxo energético intra e interpessoal; logo, desarmonia é a interação destrutiva dentro do desequilíbrio dinâmico do fluxo energético intra e interpessoal.
Poderíamos ficar eternamente discutindo e discorrendo sobre harmonia e desarmonia. Embora a Terapia Organizacional conceitue assim harmonia e desarmonia, cada pessoa as vê de um jeito particular, podendo chegar ao ponto de uma coisa parecer harmônica para uma pessoa e desarmônica para outra. Portanto, os conceitos de harmonia e desarmonia sempre são relativos.
Embora exista no ser humano uma forte necessidade de conceituar as coisas, para a Terapia Organizacional a harmonia é um objetivo a ser continuamente alcançado, e se alcançado, dificilmente dura muito tempo, e tempo aqui também é relativo, pois as circunstâncias da vida sempre estarão desarmonizando a organização grupal. Para a Terapia Organizacional tais desarmonizações são oportunidades de crescimento que a vida oferece aos integrantes de um grupo. Conseqüentemente, a harmonia apresenta-se como o horizonte que se afasta à medida que dele nos aproximamos, configurando-se dessa forma como um ideal orientador do caminho do grupo. Portanto, é preciso investimento dos integrantes de um grupo para que ela seja alcançada continuamente, daí concluir-se que o alcance da harmonia torna-se responsabilidade de todos.
Falta-nos compreender alguns fenômenos humanos com mais profundidade. A vida e o mundo em que vivemos, embora não nos pareçam claramente, mostram uma realidade totalmente impermanente. Entretanto, somos tentados, por hábito, costume, neurose, ignorância ou outro motivo qualquer, a buscar e manter tudo o que se nos apresenta estável. Tentamos alcançar o que é seguro para nós, ainda que aparentemente, visando com isto manter nossa segurança interior. Conseqüentemente, passamos a antagonizar as mudanças e delas nos tornamos inimigos. A ilusão de que podemos alcançar algum tipo de estabilidade faz que nos acostumemos facilmente com toda situação, individual ou coletiva, que mantenha algum tempo de duração. Acostumados com ela, tendemos a defender inflexivelmente sua manutenção. Isto nos permite vislumbrar que a duração da harmonia não se mostra tão benéfica como usualmente tendemos a enxergar. Caso ela se torne duradoura, o grupo por ela beneficiado tende a expressar comportamentos defensivos visando a sua manutenção. Resultado: seus integrantes permanecem estagnados, imobilizados e enrijecidos por suas atitudes defensivas. As novidades, a evolução ou os desenvolvimentos são rejeitados sumariamente e, em conseqüência, as pessoas vão se desatualizando e perdendo paulatinamente sua utilidade, ou seja, a harmonia também decreta a morte de um grupo.
A desarmonia é uma condição carregada de oportunidades de desenvolvimento. Ela está repleta de desafios a serem compreendidos e resolvidos. Neste sentido, torna-se impossível um grupo de pessoas compreender e resolver sua desarmonia sem crescer. Portanto, a saúde individual e grupal depende da compreensão de que a desarmonia nada mais é que uma condição que desafia os integrantes de um grupo a buscar a harmonia. A saúde encontra-se justamente no comportamento de busca contínua da harmonia, pois o contrário, ou seja, a desistência dessa busca, implica a manutenção do estado desarmônico que é tão destrutivo quanto a fixação no estado harmônico. Quando o indivíduo desiste da busca constante da harmonia, troca este comportamento de saúde dinâmica por um estado patológico de conformação. É preciso entender que, enquanto a harmonia duradoura aglutina os integrantes de um grupo em sua defesa, resultando, como conseqüência, a estagnação, a desarmonia duradoura desintegra o grupo, provocando freqüentes conflitos interpessoais, desenvolvendo nos seus integrantes tendências patológicas crônicas. O estado desarmônico crônico é fruto da ação das defesas atitudinais cristalizadas, já que os indivíduos passam a viver uma irrealidade através de seus personagens e não a realidade através da expressão clara de sua essência. Que tipo de condição pode estar contribuindo para que desenvolvamos tais comportamentos?
Vivemos dividindo e classificando tudo. Certo-errado, bom-ruim, frio-quente, justo-injusto, alto-baixo, largo-estreito, correto-incorreto, fraco-forte, claro-escuro, sujeito-objeto, agudo-crônico, amor-ódio, amigo-inimigo, patrão-empregado, a lista é extensa. Não levamos em conta, por exemplo, que o bom só tem sentido em relação ao ruim, que só conhecemos o certo porque temos como referencial o errado. Não consideramos que todos os pares de opostos são relativos, já que um só existe relacionando como seu oposto. Não consideramos ainda que o mesmo vínculo de oposição torna-os completamente relacionados. Também não levamos em conta que os pares de opostos convivem inseparáveis em nosso interior, ou seja, amor e ódio por uma mesma pessoa podem conviver juntos no mesmo coração. Recusamo-nos a admiti-lo por acreditarmos que só podemos sentir um deles, então reprimimos o outro. Não consideramos, ainda, que tais dualidades são pontos fixos fundamentados em conceitos e definições, pois sem estes a comunicação em qualquer idioma se tornaria inatingível. Quanto mais claros são os conceitos e definições dos termos de uma língua, mais clara e fluida é a comunicação. Porém, a definição e o conceito fixam pontos dentro de uma linearidade que contrasta com a impermanência, continuidade e simultaneidade da vida. Tais tendências nos induzem a um entendimento extremista dos opostos duais. Conseqüentemente, na vida cotidiana, acabamos transformando os pares de opostos em absolutamente opostos. Por exemplo, o certo torna-se "absolutamente certo" e o errado transforma-se em "absolutamente errado". Portanto, podemos compreender o quanto esta forma extremada de classificar as coisas pode ser prejudicial às pessoas em todos os sentidos.
Vamos facilitar nosso entendimento, colocando o exemplo "certo-errado" como pontos fixos num contínuo linear, como mostra a figura abaixo. Além da forma extremada de classificar as coisas, tendemos a enquadrar nossos julgamentos dentro desses pontos fixos. Portanto, inclinamo-nos a uma postura radical que tende a classificar como certa ou como errada uma coisa qualquer, resultando na postura extremada do absolutamente certa ou absolutamente errada já citada. Nossas atitudes demonstram dificuldades para aceitar meios termos. No entanto, apesar da riqueza de nosso idioma, não há termos suficientes para um gradiente abrangente de classificações intermediárias, embora isto talvez seja impossível.
Além disso, algo que é classificado como certo por uma pessoa ou grupo de pessoas pode ser classificado com errado por outra pessoa ou grupo. Entretanto, para acomodar nossos sentimentos e emoções, tendemos a colocar tudo o que podemos num dos lados, ou seja, no lado certo o que vemos como certo ou no errado o que enxergamos como errado. Aquilo que não é certo é errado e vice-versa. Para realizar esta façanha, temos que distorcer a realidade, classificando como certo tudo o que está mais perto do ponto fixo "certo", fazendo o mesmo com o que classificamos como errado. Mesmo com todo este esforço, resta uma desconhecida quantidade de aspectos que não conseguimos classificar como certo nem como errado. Esta é a zona de angústia ou ansiedade com a qual temos dificuldade para lidar. Não há parâmetros. Não nos apercebemos nem da angústia que vivemos, portanto, não a resolvemos.
Então, de que forma lidamos com essa zona de angústia? Tendemos a lidar de duas maneiras. Tentamos esquecer o fato, visando torná-lo ilusoriamente inexistente ou agüentamos a angústia até que ela seja amortecida e não mais percebida; assim, aparentemente nos livramos dela. Portanto, acumulamos dentro de nós uma quantidade enorme de conteúdos latentes, desperdiçando imensa quantidade de energia para conter aquilo que tentamos ocultar de nós mesmos: "nossas emoções e sentimentos". Encouraçamos nossas emoções e nossos sentimentos proibindo-nos de ter acesso a eles.
As brigas, as divergências, as discussões acaloradas, as defesas apaixonadas de pontos de vista, os feedbacks duros que causam dores, não são vistos pela Terapia Organizacional como aspectos negativos, desde que utilizados para a busca da verdade existente entre os envolvidos. Em geral, os feedbacks verdadeiros tendem a transformar parceiros no trabalho em inimigos. Meu inimigo não é meu companheiro de trabalho, que, como eu, luta pelas mesmas coisas: realizações, ganhos melhores, melhores condições de (e na) vida. Meus inimigos são outros. Meu primeiro grande inimigo é meu personagem (ou meus personagens, já que possa ter vários). O segundo, são as barreiras que levanto para me defender (não sei bem do que), assim como aquelas que ajudo a levantar entre mim e meus companheiros. O terceiro, são os personagens desempenhados por meus companheiros e não estes. Portanto, meus verdadeiros inimigos não são meus companheiros de trabalho, mas aquilo que está entre mim e eles, limitando e impossibilitando o desenvolvimento de um relacionamento verdadeiro. Saber disto significa que posso pensar melhor antes de reagir a um aparente ataque advindo deles. Posso me juntar a eles e, juntos, tentarmos esclarecer a circunstância e a configuração do acontecido, e crescermos todos com seu solucionamento.
A figura acima mostra o que já foi discutido. Se a desarmonia se solidificar não funcionará como espiral ascendente de crescimento, mas se transformará num estado patológico que envolve os integrantes de um grupo num círculo vicioso de agressões mútuas, o qual tende a cristalizar-se e a repetir-se eternamente, impedindo-os de ver qualquer tipo de solução. O stress resultante de situações como essa desgasta os indivíduos continuamente até que adoeçam. Na maioria das vezes eles acostumam-se tão solidamente com a insalubridade desse tipo de situação que qualquer iniciativa mais saudável torna-se aversiva. Sempre sentirão falta daquela situação desarmônica a que se acostumaram. Portanto, levar saúde para a organização também significa enfrentar a resistência para sair das situações desarmônicas cristalizadas a que todos estão acostumados.
COMO A TERAPIA OCUPACIONAL TRABALHA A HARMONIA-DESARMONIA NAS ORGANIZAÇÕES?
O estado em que qualquer grupo esteja organizado num dado momento configurou-se ao longo de sua existência. Infelizmente, as ações empresariais, administrativas e gerenciais não cuidaram de incluir, em seus propósitos, conhecimentos a respeito do comportamento humano com o mínimo de profundidade que permitisse lidar com as pessoas de forma mais adequada, já que tais ações vêm eliciando comportamentos defensivos. O comportamento defensivo tem origem em situações drásticas que agridem o indivíduo e obrigam-no a desenvolver atitudes específicas para se defender. Tais atitudes tendem a repetir-se toda vez que a situação atual apresente-se com configuração semelhante àquela de sua origem. Portanto, eliciar comportamentos defensivos nos colaboradores significa fomentar reações agressivas, significa incentivar a formação de feudos, promover confrontações, transformando em adversários ou inimigos aqueles que deveriam ser parceiros, significa fomentar a destrutiva competição, entravar o fluxo relacional grupal e o fluxo produtivo como conseqüência.
Fluxo produtivo é o resultado processual da relação entre pessoas, equipamentos, insumos, ambiente, técnica, normas, procedimentos, dentre outros, cujo resultado mostra determinado resultado. Este pode ser classificado como eficaz / ineficaz, eficiente / ineficiente, etc. Entretanto, as pessoas são os aspectos determinantes desse fluxo, pois elas detêm a inteligência e a versatilidade das ações produtivas. Elas detêm o discernimento entre os caminhos a serem percorridos dentro de um processo produtivo, seja este repetitivo ou não. Conseqüentemente, o fluxo produtivo está diretamente vinculado ao fluxo relacional desenvolvido entre os profissionais. Portanto, fluxo relacional adequado é igual a fluxo produtivo adequado. Logo, o comportamento defensivo tende a emperrar, direta ou indiretamente, o fluxo produtivo, pois fixa o grupo na desarmonia, embora fixações na harmonia tendam, no longo prazo, a resultados semelhantes. Estas são razões que induzem as organizações ao inexorável, progressivo e crônico imobilismo.
Desse modo, o estado em que se encontra o grupo, quando procura nossa ajuda, já se configurou ao longo de anos e, normalmente, o encontramos fixado no estado desarmônico. Portanto, a Terapia Organizacional procura mobilizar a energia estagnada e cristalizada na desarmonia, para que seus integrantes comecem a repensar a respeito do que fizeram com o próprio grupo. Procura também identificar a contribuição de cada integrante para que o estado atual seja mantido. Isto não objetiva qualquer tipo de punição, não há sentido em punir, mas sim em ajudá-los a se conscientizarem dessa realidade para que possam, unidos, reverter a situação. À medida que o processo se desenvolve, vamos apontando, vamos acenando e questionando os pontos de cristalização, visando a ajudá-los a descobrir as razões que os levaram a tal estado e o que pode ser feito para mudá-lo. Não somos nós que trabalhamos diariamente na empresa. De nada adianta levar nossa verdade. São os integrantes dos grupos que podem encontrar sua própria verdade e os meios para mudar o que desejam. Para encontrar sua verdade, eles precisam abandonar os pontos de estagnação promovidos pelas cristalizações tanto individual como grupal. A partir do momento em que os grupos vão encontrando suas verdades, eles passam a ser os primeiros a caminhar em busca do harmônico. Porém os grupos sabem, ou saberão, que a harmonia, quando alcançada, tem duração limitada. Sabem, ou saberão, que a saúde, o segredo e, ao mesmo tempo, o grande desafio, está em buscá-la continuamente. Nós acreditamos que esta vida seja uma escola e nesta escola estamos para aprender continuamente, durante toda nossa vida. (Não há descanso. Cremos ainda que qualquer atividade grupal (empresa, família escola) esteja organizada em ressonância com os princípios desta escola da vida. A vida grupal oferece a seus integrantes inúmeras oportunidades de aprendizado e crescimento. Tais oportunidades podem ser aproveitadas ou não, depende de cada um, embora mesmo fugindo das referidas oportunidades a vida sempre estará forçando, sempre estará nos impondo situações de aprendizado, quer queiramos quer não, não adianta ter medo, não há como fugir.
Guilherme Velloso
Administrador de Empresas
Diretor do Instituto Chiorlin Velloso
Biosynthesis’ Friend
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Maria Wilma Chiorlin
Psicóloga
Certificada em Biossíntese
Psicoterapeuta e Supervisora em Biossíntese
Certificada em Psicodrama e Bioenergética
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