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A ALIANÇA TERAPÊUTICA

por Liane Zink

Pode-se considerar que a aliança terapêutica fundamenta-se no desejo consciente do paciente de cooperar e na disposição de aceitar a ajuda do terapeuta na superação das dificuldades internas. Isso não é o mesmo que comparecer ao tratamento simplesmente com o motivo de obter prazer ou alguma outra forma de gratificação. Na aliança terapêutica existe uma aceitação da necessidade de enfrentar os problemas internos e de executar o trabalho analítico, apesar da resistência interna (especialmente no caso de crianças) ou externa (por exemplo, da família) (Sandler et al., 1969).

Parece claro que esse conceito também deve estar relacionado ao que Erikson denominou "confiança básica" (1950), uma atitude, relativa às pessoas e ao mundo em geral, que se baseia nas vivências de segurança do bebê nos primeiros meses de vida. A ausência da qualidade de "confiança básica", segundo se pensa, é responsável pela ausência de uma aliança terapêutica que funcione plenamente, o que se observa em certos psicóticos e em outros pacientes que passaram por grave privação emocional quando crianças.

FREUD (1905)

Que são transferências? São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e fantasias surgidos durante o processo da análise; possuem, porém, a peculiaridade, que é característica de sua espécie, de substituírem alguma pessoa anterior pela pessoa do médico. Em outras palavras: toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como pertencente ao passado, mas aplicada à pessoa do médico, no momento atual. Algumas dessas transferências têm um conteúdo que não difere do de seu modo em nenhum aspecto, salvo quanto à substituição. Estas, então – mantendo a mesma metáfora -, são simplesmente novas impressões ou reedições. Outras são construídas de modo mais engenhoso; seu conteúdo foi sujeito a uma influência moderadora... astutamente tirando vantagem de alguma característica real da pessoa ou das circunstâncias do médico e ligando-se a isso. Estas, portanto, não serão mais novas impressões, e sim edições revistas.

Até aí a transferência tinha sido vista como um fenômeno clínico podia atuar como obstáculos ou resistência (ver capítulo 7) ao trabalho analítico; porém, alguns anos mais tarde (1909ª), Freud observou que a transferência nem sempre era um obstáculo à análise, mas podia também desempenhar "um fator de convicção não só para o paciente como também para o medico". Essa é a primeira menção de transferência como agente terapêutico. Deve-se notar que Freud sistematicamente distinguia a análise da transferência, enquanto procedimento técnico, da chamada "cura por transferência". Na qual o paciente parece livre-se de todos os seus sintomas como conseqüência de sentimentos de amor pelo analista e de um desejo de lhe ser agradável (1915). *

Um pouco depois, Freud assinalou que "uma transferência está presente no paciente desde o inicio do tratamento e, durante algum tempo, é o mais poderoso motivo de seu progresso"(1916-17). Pareceria que, naquele então, Freud estava usando esse termo para incluir muitos fenômenos diferentes, embora todos eles tivessem a qualidade de ser considerado repetição, no presente, de sentimentos e atitudes do passado. Em 1912, Freud falara de transferências "positivas"em contraposição a transferências "negativas, e, ademais, subdividiria as transferências positivas em dois tipos: as que auxiliavam o trabalho terapêutico e as que o dificultavam.

As qualidades específicas da transferência de um paciente receberam um significado adicional quando o conceito de "neurose de transferência "* foi introduzido (Freud, 1914 a). Esse conceito enfatizava a maneira como os relacionamentos prévios,que eram componentes da própria neurose, moldam também o padrão dominante dos sentimentos do paciente referentes ao psicanalista. O conceito de "neurose de transferência" foi ampliado por Freud (1920) quando comentou que o paciente em análise é obrigado a repetir o material reprimido como uma vivencia contemporânea, ao invés de conforme o médico preferia ver, recordá-lo como algo pertencente ao passado. Essas reproduções, que emergem com tamanha e indesejável exatidão, têm como tema alguma parte da vida sexual infantil. . . e invariavelmente encontram expressão no âmbito da transferência, no âmbito da relação do paciente com o seu medico. Quando as coisas atingem essa fase, pode-se dizer que a neurose anterior agora foi substituída por uma nova neurose, a "neurose de transferência".

A repetição do passado, sob a forma de transferências contemporâneas, era, do ponto visto de Freud, conseqüência da (impropriamente denominada) "compulsão de repetir"(1920).

*A relação entre transferência e resistência é abordada no capitulo 7. A "cura por transferência"pode ser diferençada da "fuga para a saúde, considerando esta uma forma de resistência.