por Stephen Johnson
ESTILOS DE CARÁTER
1.Uma Teoria do Desenvolvimento Caracterológico
2.Aspectos Caracterológicos do Apego e do Vínculo
O Tema Esquizóide
O Tema "Oral"
INTRODUÇÃO
ESTE É O LIVRO QUE EU GOSTARIA de ler quando comecei a estudar a psicologia seriamente, há mais de trinta anos. Como muitos jovens, entrei no campo com perguntas amplas, diretas, significativas: O que faz as pessoas funcionar? Por que somos tão loucos? O que se pode fazer? Oito anos mais tarde, com um doutorado nas mãos, eu sabia muito mais sobre projeto expe-rimental, estatística e aprendizagem de sílabas sem sentido do que quando comecei a minha busca. Não foi antes de seis anos depois, com um cargo respeitável num departamento de psicologia e a liberdade de uma licença, que finalmente voltei à essas perguntas mais fundamentais. Isto exigiu que eu abandonasse os limites estreitos então estabelecidos pela principal corrente de psicologia acadêmica com relação às formas válidas de conhecimento. O conhecimento deduzido empi-ricamente, adquirido aferrando-se às regras sancionadas em qualquer época específica simples-mente não seria suficiente para responder a perguntas como essas. Descobri que as respostas teri-am que envolver um certo número de formas de conhecimento e a integração de muitas contribui-ções, muitas vezes independentes. Completar este livro fechou um ciclo - se é que não me trouxe o conhecimento global - de respostas às perguntas que me levaram ao campo. Os elementos das res-postas provêm da corrente principal, mas muitas outras estão fora dela. O que você encontrará aqui é produto de intuição, teoria, experiência, deduções e, por que não, de um bom número de pesquisas empíricas da corrente principal.
"O que faz as pessoas funcionar?" é uma pergunta muito semelhante à outra, igualmente ampla e importante: "O que é a natureza humana?". Me parece que a teoria e a pesquisa do desenvolvi-mento, na sua essência, tentam responder a essa pergunta. A observação contínua de recém-nascidos, bebês e crianças conduz à especulação sobre a natureza essencial deste ser a princípio tão indefeso e potencialmente completo. Às vezes, é necessária uma observação cuidadosa e com freqüência planejada para descobrir o quanto este pequeno ser realmente já é completo. As teorias são especialmente proveitosas neste esforço de sugerir as perguntas certas.
O que a teoria e a pesquisa do desenvolvimento nos deram é uma descrição cada vez mais am-pla, embora cada vez mais precisa, da natureza humana. Isto inclui, particularmente, os tipos de necessidades que os seres humanos precisam satisfazer e os tipos de ambiente que se deve prover para atingir o potencial humano. De modo similar, as observações de crianças em desenvolvimen-to nos dizem o que acontece quando essas necessidades são frustradas cronicamente ou quando não se oferece os ambientes necessários. Novamente, as teorias sugerem o que procurar e postu-lam as relações essenciais entre o ambiente precoce e o desenvolvimento resultante.
Eu sempre achei que a aplicação mais fascinante desse conhecimento básico consiste em res-ponder à segunda pergunta: "Por que somos tão loucos?" É óbvio que, se não fosse a nossa loucu-ra, haveria muito menos sofrimento e destruição no mundo. Os seres humanos resolvem proble-mas de longe melhor que qualquer outra forma de vida, mas a nossa loucura interfere profunda-mente nesse processo em todos os níveis. É na família, no local de trabalho e na política da espécie humana que vemos o desperdício colossal e a dor, oriundos da nossa tendência para a disfunciona-lidade destrutiva.
Ao responder à segunda pergunta, achei muito proveitoso estudar os padrões mais comuns ou síndromes em que se exprime a nossa loucura. Esses padrões são melhor descritos pelos clínicos que tentaram tratar a patologia. Dentre esses, os que descreveram as estruturas, estilos ou distúr-bios de caráter foram, com freqüência, os mais sagazes. As conseqüentes síndromes de caráter responderam bem às provas do tempo e da prática clínica e apresentaram resultados relativamente bons sob o escrutínio de pesquisas mais sistemáticas. Nas suas formas mais extremas, esses distúr-bios de caráter ou personalidade são amplamente empregados para fins diagnósticos mundo afora.
Agora, eis a integração de duas formas de conhecimento que nos auxiliam a responder a estas perguntas. Os estudos do desenvolvimento ou da natureza humana se assentam como uma luva às descrições dos padrões da loucura humana. De mais a mais, esses padrões não ocorrem simples-mente nas formas mais severas da doença mental. Tais padrões são claramente registrados em po-pulações normais e grupos com patologias menos graves. Acredito que há diversos contínuos da disfunção humana, do mais grave ao menos grave, que refletem blocos construtivos da quintessên-cia da natureza humana. Acredito que encontrei sete desses blocos construtivos em torno dos quais a personalidade e a psicopatologia se organizam. Talvez haja mais.
Crítica à adaptação de qualquer indivíduo em qualquer um destes contínuos é a interação. Essa interação se dá entre o indivíduo, com necessidades mutantes porém básicas, e a habilidade mutan-te do meio-ambiente para preenchê-las. Essa interação constrói a personalidade e produz a psico-patologia. Numa era em que a nossa ciência mais básica, a Física Quântica, afirma que a matéria em si é feita de interação, estamos maduros para entender e experienciar a nossa personalidade e a nossa patologia pessoal como produto da interação.
A visão interativa na psiquiatria está longe de ser recente. Fairbairn (1974, publicado original-mente em 1952) e Guntrip (1968, 1971) estão entre os primeiros, mais claros e seminais colabora-dores. Essas pessoas representam parte daquilo que veio a ser conhecido como a Escola Inglesa da Teoria das Relações Objetais, que enfatiza o papel da relação provedor - criança no desenvolvi-mento da personalidade e da psicopatologia. A deles é uma variação da teoria Psicanalítica que enfatiza dimensões do desenvolvimento e da psicopatologia da criança, deduzidas teoricamente, com base nas primeiras interações.
O caráter não é habitualmente o foco central para esses teóricos, embora acabem se voltando para ele, de fato. E as suas teorias não são, via de regra, informadas ou modificadas pela pesquisa do desenvolvimento da criança. Portanto, para compreender mais profundamente essas perguntas essenciais, é preciso integrar o processo de desenvolvimento, os determinantes interacionais e as síndromes caracterológicas.
Embora todos os blocos construtivos tenham estado disponíveis para essa tarefa há certo tempo, somente agora, aqui e ali, estão sendo agregados. Tentei fazer isso nos meus livros anteriores, es-critos para terapeutas que atuam e os que estão em formação (Johnson, 1985, 1987, 1991). Cada um destes livros se dedica a um ou dois modelos caracterológicos, com ênfase no tratamento. Ten-tei escrever cada um deles numa linguagem não técnica o suficiente para que qualquer leigo ins-truído pudesse lê-los. No entanto, o grosso de cada livro não fala a não-terapêutas, e qualquer es-tudante sério teria que juntar todos os meus livros e os de outros para completar o quadro. Este livro reune tudo isto, primeiro para descrever o modelo teórico empírico global, que integra de-senvolvimento, caráter e interação. Depois, há uma descrição minuciosa de cada uma das estrutu-ras de caráter, que reflete os sete temas existenciais básicos.
Minha esperança é que esse trabalho seja acessível a qualquer segundanista pertencente ao gru-po maduro da universidade e que ele o ajude a responder às suas próprias perguntas a respeito da natureza humana e da loucura. Espero que ele o ajude a montar o cenário de sua descoberta do que pode fazer a respeito da loucura, não apenas na psicoterapia, mas na sua vida e nos seus relacio-namentos. Também espero que você, assim como eu, se relacione a ele como um trabalho em an-damento. Essas perguntas são importantes demais e os problemas por demais intrincados para con-duzir a quaisquer palavras definitivas ou soluções finais. O saber teórico, empírico, intuitivo, de-dutivo, vivencial e outros tipos de saber continuarão informando e corrigindo o trabalho.
As respostas à terceira pergunta, sobre o que podemos fazer a respeito da loucura humana, é aquela em que sinto o menor fechamento. Essas respostas continuarão certamente a evoluir e virão de campos muito variados, desde a psicofarmacologia até a ecologia e outros com os quais sequer sonhamos. Mantive, no entanto, a estratégia dos meus livros anteriores: conservar a parte sobre os objetivos psicoterapeuticos de cada tipo de caráter. Aqui, tendo a me dirigir aos terapeutas, mas as análises podem ser aplicadas ao próprio desenvolvimento pessoal ou ao dos outros.
Os primeiros quatro capítulos deste livro apresentam o modelo teórico empírico global. Foram originalmente publicados em O Caráter Simbiótico (Johnson, 1991) e os Capítulos de 2 a 4 revi-sam o modelo com relação a cada uma dos sete temas existenciais básicos e as suas manifestações caracterológicas. O leitor novato pode querer pular os Capítulos de 2 a 4, pelo menos no começo, porque são mais voltados para a pesquisa do que os capítulos seguintes.
Cada um dos capítulos subseqüentes descreve uma resolução existencial, a etiologia, expressão e os objetivos do tratamento do caráter formado pelo seu manejo inadequado. Fazendo uma atuali-zação e uma editoração mínimas, usei então os capítulos descritivos dos meus livros anteriores. Os Capítulos 5 e 6 provêm de Transformação Caracterológica (Johnson, 1985), o Capítulo 7 de O Caráter Simbiótico (Johnson, 1991) e o Capítulo 8 de Humanizando o Estilo Narcísico (Johnson, 1987). Os Capítulos de 9 a 11 foram escritos especialmente para este livro, no sentido de comple-tar a descrição de todos os sete tipos de caráter.
Na maioria das vezes, cada capítulo é um assunto a parte e este livro poderia ser lido em qual-quer ordem. O primeiro capítulo apresenta, no entanto, a teoria global e seria, de modo geral, pro-veitoso para compreender mais plenamente os demais. Para aqueles leitores familiarizados com os distúrbios de personalidade, esse capítulo também mostrará como o meu tratamento se relaciona com as categorias de distúrbios de personalidade empregadas correntemente.
Leitores sofisticados me perguntaram, vez ou outra, o que há de novo ou diferente na minha abordagem. A resposta é que não há muita coisa aqui que seja nova. O que há de diferente é o se-guinte: não é psicanálise, não é relações objetais, não é psicologia do self nem psicologia do ego. Não é comportamental, cognitivo ou afetivo. Não é caracterológico, desenvolvimentista, interati-vo, fenomenológico. Não é teórico, empírico, vivencial, intuitivo ou dedutivo. É tudo isso e mais que isso, numa mescla. Ele procura responder a perguntas importantes com as informações dispo-níveis. Quem tem curiosidade a respeito deve fazer isto. Eis a minha resposta. Espero que ajude.