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Ressonância e Contemporaneidade

Liane Zink

O conceito de ressonância é um dos pilares centrais na teoria da Biossíntese que David Boadella desenvolveu.

Assim como o grounding que foi criado por Alexander Lowen, foi atualizado e expandido, também a ressonância, ganha diferentes visões na atualidade.

Para compreendê-la, iniciaremos pela compreensão que o sentido do real depende da experiência vincular e que essa experiência começa com movimentos pulsatórios uterinos, começa com a relação mãe-bebê, através da ressonância.

Este movimento pulsatório da ressonância, esta pulsação de vida, também presente no momento do nascimento, indica um ritmo de compartilhamento entre mãe e bebê. Ele é o que diferencia um organismo do outro e o singulariza. Este ritmo é o movimento do desejo interno que gera uma coreografia que, por sua vez, possibilita um fluxo de alma.

Quando há ressonância, existe graciosidade e fluxo de alma. Ela cria a melodia do contato e organiza a dinâmica do self do sujeito.

São seus elementos constituintes a simpatia e a empatia, a confiança básica, a continência, o holding, a cooperação e a integração. Todos eles são participantes da possibilidade da dança acontecer entre duas pessoas, como diria Boadella, desde a criação do início desse movimento até o encontro, que é o ápice do processo.

Podemos usar o conceito de ressonância no contexto clínico, organizacional e educacional e também em relação ao mundo que nos cerca. Ou seja, com os elementos da natureza, a água, a madeira, o fogo, o ar e a terra e com os objetos físicos e com a tecnologia contemporânea, que atravessa o nosso mundo atual o tempo inteiro. Ela participa da experiência de todos os nossos sentidos que “ delineiam expressões de formas técnicas da existência marcando na nova sociedade, novas relações sociais eletronicamente mediadas, caracterizadas pela transitividade fluida do sujeito no objeto e do objeto no sujeito”. (p.18, Márcio Perniola. O Sex Appel do Inorgânico. SP: VER).

David Boadella especifica que para se chegar à ressonância é necessário passar pela interferência. Encontramos a ressonância aos poucos, saindo da interferência, cada vez mais em contato com o coração. E abrir o coração, levando-se em conta os conceitos contemporâneos, significa presentificação, ocupar o lugar, ter a capacidade de entrar no campo onde inúmeros fluxos se atravessam e se afetam e ampliar novas possibilidades.

Faz parte da ressonância o conceito de inclusão. Ter a capacidade de incluir em si o outro do jeito que ele é. Aceitação e presença, que formam um campo, em que se recupera esse espaço que se situa entre as pessoas. Espaço que une e que é um campo de ressonância, que se constitui dentro e ao redor das pessoas em relação. Um espaço entre e um tempo, que não é linear, nem absoluto, mas o tempo de encontrar um ritmo biológico interno.

Para ilustrar um campo de interferência, descreverei o mito do Narciso. Eco, a deusa que perdeu a voz própria, por sua paixão, cria um estado de anti-ressonância, um estado simbiótico com Narciso por repetir as suas frases, num espaço que lhes é comum. Esse estado eco-narcísico surge em vários campos nas relações. Nos estados de paixão em que se parece estar tão ressonante, na verdade, temos simbiose, o que acaba criando uma falsa unidade. Para estabelecer a ressonância, entretanto, é preciso encontrar o registro da diferença.

O vínculo na ressonância recupera o poder que une, que possui um quantum energético, energia que é fundada no vínculo mãe-bebê. O encontro do gesto materno que compreende e acolhe a necessidade do bebê dá sentido à construção do seu self e à sua corporificação (Winnicott).

Estar em ressonância é ir além da transferência, diz Boadella, ou seja, á a possibilidade de sair da pequena história projetiva para entrar num sistema mais amplo de relacionamento. É construir novos mapas de aprendizagem Como afirma Guerlinda Bulcholz, é criação de uma atmosfera na relação cliente/terapeuta, que tem que ser observada, desvendada e elaborada para que ela seja propícia à relação, à efetivação da ressonância e se dá a partir dos afetos amorosos.

Hoje, fala-se também de ecoressonância. O mundo atual que apresenta tragédias naturais ou provocadas pelo homem, nos coloca em ressonância com todo o planeta. Impossível não ficar ressonante com os efeitos do Katrina. A ressonância com a aldeia global constrói os humores do nosso dia-a-dia, nos afeta.

Podemos falar de ressonância com a comunidade. Edith Stein Werk nos diz que existe uma comunidade de destino que coloca a humanidade num grande todo e que a humanidade procede de uma mesma raiz, se dirige a um mesmo fim e está implicada num mesmo destino. Aí está a possibilidade de ressonância entre todos. Essa é a dança do encontro.

Como vemos muito se pode acrescentar ao conceito de ressonância se observarmos aspectos da contemporaneidade.

Mas, ao voltamos para nossa sala de atendimento, procurando onde está ela, percebemos que, às vezes, o sofrimento do cliente é tão grande que a única possibilidade que temos é ficarmos no silêncio da ressonância.

Gostaria de apresentar um caso ilustrativo do conceito da ressonância. Aconteceu num workshop no Japão, com uma mulher chamada ficticiamente Mitiko, que era cliente de um aluno de um grupo em formação de Biossíntese.

Corpo

- Muito alta (1,70 m), magra, pele sobre ossos; vestida de terno com gravata preta, camisa branca. Cabelo curto. Olhos grandes de coruja, rosto miúdo. Parecia um ser espacial, chamava a atenção pela magreza, era lúgubre, triste. Parecia uma alma penada.

Situação existencial

- Havia acabado de sair do hospital, onde fora internada várias vezes por anorexia. Não trabalhava nem estudava. Estava permanentemente com uma garrafa de chá verde, que a hidratava e mantinha viva. Mamava na garrafinha.

Impacto no terapeuta

- Quando a vi, pensei que ela poderia morrer pela sua fragilidade. Senti que deveria intervir com muita delicadeza, criando um toque dentro do campo da ressonância, porque ela provocou em mim estados intensos.

Trabalho terapêutico

- No primeiro momento do encontro, trabalhei o grupo, a partir dos pés, para que cada um encontrasse o seu grounding. Onde nossos pés estão nos levando? A intenção era que o início do grupo se desse a partir do enraizamento da identidade no grupo e cada um formasse um vínculo entre os que não se conheciam. Sempre inicio os trabalhos a partir dos pés, centrando, criando vínculo com o olhar, pedindo para fazer um círculo porque isso possibilita a forma de mandala do grupo e favorece que se colha indícios de sociograma. Mitiko estava sempre perto de Haruki, seu terapeuta, e não fazia contato. Não conseguia parar em pé. Deixava-se cair no chão de fraqueza. Eu a coloquei nas costas com as mãos na minha cintura, apoiada nas minhas costas. Emprestei-lhe pernas e coluna para que ela pudesse a um tempo acompanhar o grupo e participar de sua dinâmica. Ela foi se entregando a minhas costas, confiando, soltando o peso. Encostando a cabeça na minha nuca, eu me sentia uma tartaruga levando um bebê. No dia seguinte, Mitiko trouxe-me um presente, o desenho de uma mulher com seios grandes e um bebezinho no meio deles, com um formato de um coração em agradecimento.

De acordo com o meu método, iniciei nesse dia, os trabalhos individuais. Centrei o trabalho com ela nas questões da oralidade: recuperar o reflexo de sucção e, mais importante, o afeto perdido no peito. Tive a idéia de reconstruir um contato muito íntimo, rompendo um campo de defesas, para, então, estabelecer um fluxo. Não existe relação sem estar na condição de estar afetado. Ela me alterou e me mobilizou .

Trabalhei com respiração e estimulação da boca, formando bico, reavivando o vínculo profundo com a figura da mãe através de sensações primitivas, cheiro, gosto, retomando a possibilidade de reviver o momento de sucção. Umedeci sua boca num primeiro momento com minha saliva. Ela reagiu com repulsa. Num segundo momento, ela usou sua saliva para passar na minha boca. Nesse momento, éramos como um ser único pulsando em ressonância. Introduzi uma laranja para quebra da simbiose. Nessa quebra da simbiose, ela teve um reflexo de vômito, depois voltou à confiança. Espremi algumas gotas do sumo em sua boca, como se estivesse alimentando um passarinho. Sua respiração foi aprofundando. Seus olhos não perdiam o contato e a confiança foi ensinando-a e permitindo que ela deglutisse. Naquela noite, ela aceitou jantar com o grupo, pediu um pouquinho de tofu e mastigou. Não colocava alimento sólido na boca havia meses.

Leitura clínica

Era um caso grave de anorexia. O que se via era o desejo de viver.

Ela me afetou num primeiro momento, mas é como se eu estivesse longe de capacidade de entrar em ressonância, talvez por estar em ambiente estranho (sem os códigos, em país estrangeiro). Em algum momento me deparei com seu olhar: era vazio, mas pedia ajuda.

No segundo momento, no exercício de grounding, quando ela caiu, começou a simpatia, a compaixão. Fui buscando dentro de mim recursos de ajuda que vão além da transferência, só poderia se dar na ressonância, no encontro de almas, que é orgânico.

Neste momento me veio a imagem das mães indígenas que carregam os bebês nas costas, senti que poderia emprestar o meu grounding a ela. À medida que ela foi cedendo, vi que estávamos num formato de vínculo em que a única linguagem é o contato primitivo, que organizava o campo relacional.

À medida que a confiança básica foi se construindo na entrega, no aprofundamento da respiração, fui sentindo sua cooperação, pude começar a trabalhar na função da oralidade.

Em sua representação corporal, oralidade são as mucosas, lábios, deglutição, sabor. Kuznetzoy utiliza os conceitos de oco e cheio, a boca oca é preenchida pelo bico do seio da mãe. Sua não conexão total me falava dos autistas com que trabalhei no início da minha carreira. Minha pergunta nesse momento era: qual a ponte do meu contato com ela? Um contato que retomasse a possibilidade dela incorporar os sentidos orais. O que desperta o autista são contatos corporais muito primitivos, pré-verbais. Nesse momento, surgiu-me a idéia de estimular as mucosas dos lábios com a língua. Foi o que pedi a ela, o que fazia com dificuldade, trazendo sintomas de reflexo de vômito. Comecei a molhar a mão na minha própria saliva, fazendo um trabalho de contato pele a pele, como forma de organização neuronal. Houve um diálogo primitivo. Ela correspondeu, tocando meus lábios com sua saliva. Neste momento, senti o encontro da ressonância, ela estava no vínculo.

A ressonância abre novas percepções, amplia a visão de novas possibilidades e cria novas sinapses cerebrais. Damásio fala que o resultado primário da atividade cerebral é vivida com sensação de bem estar e que um cérebro ao produzir tais estados primários pode também produzir outros resultados . Este bem estar é a possibilidade que resulta do encontro na ressonância. Trabalhei com o organismo, com sua fisicalidade que conectava aquilo que Damásio chama “o FILME no cérebro.

O único filme que está passando no cérebro é aquele que temos a possibilidade de ver. Portanto, essa experiência foi o resultado da minha ressonância com Mitiko.”