Imersa numa corrente de mudanças
nessa passagem da era tecnológica para a era cibernética,
nossa moderna sociedade “global” vive uma época de
enorme transformação de seus sistemas de valores, época
em que ralidade e ficção se misturam o tempo todo.
Thomas Kuhn, em “A Estrutura
das Revoluções Científicas”, refere o poder
curativo de se pertencer a uma comunidade maior, receber esse respaldo.
Segundo ele, o novo paradigma para o qual caminhamos é grupal,
comunitário e envolve mudanças em todos os planos, mas,
principalmente, no plano afetivo-emocional.
Estamos vivendo um período
denominado “analgesic society”, que define-se por um entorpecimento
dos indivíduos, enredados no consumo de objetivos, comida, drogas
e emoções fabricadas, submetidas a cargas maciças
de conformidade. Esse processo de larga escala desvia o ser humano do
contato consigo mesmo.
O campo terapêutico moderno
depara-se com o choque entre a maior expressividade individual e a desvalorização
contemporânea dos sentimentos pessoais.
Felizmente, encontramo-nos hoje em
dia diante de uma enorme diversidade de experiências que compõem
o campo clínico. Não temos mais a ilusão de uma só
técnica para desvendar a patologia. Estamos passando por uma mudança
de paradigma do pensamento disciplinar único para a multidisciplinariedade.
Ao mesmo tempo que estas características da prática clínica
nos abrem uma gama rica e diversificada de intervenções,
em que o processo psicoterápico do cliente cria um desenho, que
compõe outro desenho que, por sua vez, compõe outro desenho,
aumentando a complexidade da nossa tarefa.
A constatação clínica
que fazemos é em pacientes que, na sua maioria, não chegam
aos nossos consultórios abertos para qualquer investigação,
mas com uma queixa mais ou menos circunscrita. Esse motivo de consulta
tem raiz em certo sintoma ou problema que, para o paciente, assume o caráter
de conflito a ser enfrentado. Todo tratamento focaliza, mas se pensarmos
que o processo psicoterapêutico deve se desenrolar por um período
de tempo preciso, a proposta de concentrar a investigação
da queixa ganha uma relevância especial: o processo de focalização
será, ao final da terapia, um parâmetro central para avaliar
seus resultados.
O que é focar? Vamos recorrer
à bela definição de Hector Fiorini:
“Com uma lente biconvexa, fazer o foco é obter uma imagem
nítida de um ponto onde convergem os feixes luminosos, que se chama
precisamente ponto focal. O foco é, portanto, um lugar onde se
concentra a luz. Neste sentido, foca (ou focalizar) significa concentrar
a luz em um ponto ou zona”.
O estabelecimento do foco de uma terapia
de duração pré-determinada (como de oito meses a
um ano, por exemplo) é a sua pedra angular.
O encontro psicoterápico é
muitas vezes um confronto entre duas visões de mundo, duas cosmovisões
totalmente diferentes uma da outra. Esta é a primeira situação
que cliente e terapeuta enfrentam, o embate de duas culturas, quer dizer,
de duas formas de habitar e estar no mundo, duas estratégias, duas
formas integrais de vida. As duas culturas são grounding de vida,
é dentros delas que os indivíduos se organizam.
É preciso respeitar e considerar
essas diferenças, porque as relações são permeadas
pela questão do poder, ou seja: quem exerce o poder, como o faz
e em que circunstâncias. A relação entre terapeuta
e cliente não é uma exceção ao caso. Há
sempre um dominador e um dominado.
É também preciso considerar
que a relação dominador-dominado no contexto das Américas
é permeada pela presença de duas culturas absolutamente
diversas, a européia e a indígena. Nós, latino-americanos,
espelhamos em maior ou menor grau o choque dessas duas culturas. Nosso
inconsciente contém igualmente a cultura européia, do dominador
- que é a cultura do ter, e a cultura indígena, do dominado,
que é a cultura do ser. Talvez sejamos os portadores da cultura
européia em maior grau, e o cliente o portador da cultura indígena.
Diante do embate das duas culturas, é preciso cuidar para não
desqualificar a autoridade do paciente sobre o saber que ele tem de si
mesmo.
O primeiro momento da terapia focada
é, justamente, a negociação do foco, quer dizer,
o ponto de convergência sobre o qual cliente e terapeuta, juntos,
decidem jogar a luz, concentrar a investigação, realizar
o trabalho psicoterápico.
Neste sentido, mais do que um aliado
no estabelecimento do foco, o cliente tem participação ativa
na escolha do foco. Essa negociação cria uma aliança
terapêutica, que tem lugar entre a visão do paciente sobre
ele mesmo e a do terapeuta. É como se o cliente dissesse “A”,
o terapeuta pensasse “B” e, portanto, o que deve ser negociado
como aliança é o espaço “AB”. As duas
cosmovisões em confronto têm seu lugar de encontro no horizonte
simbólico, que é esse espaço “AB” (curiosamente,
o sentido etimológico da palavra “símbolo” é
encontro!).
Podemos encontrar na sabedoria de
nossos indios uma trilha que inspire o trabalho psicoterápico e
buscar essa troca de almas entre cosmovisões muito diversas. É
assim que entendo o primeiro diálogo e a negociação
do foco.
Essa negociação nos
remete naturalmente à questão da democracia, que implica
reconhecer a diversidade e respeitar as diferenças. Penso que um
passo importante e uma das metas a serem alcançadas ao final de
uma terapia focada é, ao criar a reciprocidade entre cliente e
terapeuta, ao assumir a democratização do poder, estabelecer
uma aprendizagem do cliente de escolha e respeito pelas suas próprias
decisões. Isto me faz lembrar de Alberto Pesso, quando diz: “A
decisão de continuar a vida é o único processo de
liberdade que pode existir”.
Para isso, é preciso que tanto
o terapeuta como o cliente estejam grounded no foco, num diálogo
constante entre essência e realidade, trabalhar os valores e as
crenças.
A partir do estabelecimento do foco
pelo terapeuta e o cliente, elaboramos como que um mapeamento de todos
as situações em que o foco se encontra na vida do sujeito.
Se o foco for uma fobia, por exemplo,
ele abre vários mapas na vida do cliente. Caberá ao terapeuta
fazer o que Hector Fiorini chama de pontes entre o foco e suas formas
de expressão, para achar onde essa situação tem raiz
na vida do cliente. Esta investigação tem um caráter
antes existencial do que analítico.
O processo de eleição
e escolha de temas a serem tratados partindo do foco permanece ao longo
de toda a terapia. Por exemplo, considerando que toda configuração
vincular é complexa, terapeuta e cliente elegem quais vínculos
devem ser trabalhados por sua importância no foco. E mais: existem
váriações de graus dentro do foco. No caso da fobia,
por exemplo, podemos ter medo, fobia, pânico. A escolha se faz a
partir de zonas de vibração energética mais intensas,
que evidentemente têm a ver com a carga emocional no foco.
Constelação vincular
Qual
é a zona de vibração no corpo?
As limitações do trabalho
com terapia focada são significativas, à medida que o processo
psicoterapêutico se vê permanentemente orientado por sucessivas
clivagens, a começar pelo foco, passando pela delimitação
da zona de vibração do foco, pelas pontes com as situações
e configurações vinculares e escolhas.