O criador da biossíntese ensina
a profissionais brasileiros princípios básicos e formas
de utilização dos principais recursos dessa abordagem
Por: Rose Campos
Revista Viver Psicologia – Novembro de 2003
 |
| David Boadella |
Há 21 anos, David Boadella
trouxe a biossíntese para o Brasil. Em sua mais recente visita
ao país organizada pela Associação de Países
Não-Europeus de Biossíntese (Overseas Association for Biosynthesis),
em setembro, Boadella pôde, mais uma vez, ter contato com profissionais
brasileiros numa conferência ministrada na PUC-SP e em dois workshops
dirigidos a profissionais da área, destacando a idéia de
que a biossíntese é uma terapia do futuro e que este é
o país do futuro. Boadella, hoje aos 72 anos, não visitava
o país há 17. O pai da biossíntese pôde reafirmar
que a abordagem foi criada como uma tentativa de lidar com a insatisfatória
divisão entre corpo, psique e espírito. O termo biossíntese
significa integração da vida e é essa forma integral
de trabalhar com o humano que ele propõe aos seus pacientes, alunos
e a todos aqueles que têm a oportunidade de tomar contato com sua
teoria e prática originadas na experiência reichiana.
VIVER PSICOLOGIA - No que consiste a proposta da biossíntese
e com o senhor chegou a ela?
DAVID
BOADELLA - Biossíntese é a integração
da vida em todos os sentidos, desde os aspectos químico, celular
e até a alma. A origem desse trabalho veio da tentativa de estender
o conhecimento sobre o corpo, a partir do modelo biológico e da
organização da vida desde o útero. Freud falava da
embriologia psíquica e embriologia é muito importante para
se entender a parte somática da biossíntese. E biossíntese
é uma terapia corporal, somática, psíquica e espiritual
que surgiu no início dos anos 60. Estamos falando de psique e soma,
além do aspecto espiritual. Psique é um termo muito difícil
de traduzir, pois não tem só a ver com mente. Também
se diz que a biossíntese é uma terapia corporal, mas não
se restringe a um corpo. O termo soma, do grego, também pode ser
traduzido como forma, e isso é muito mais que corpo físico,
inclui seu campo de energia e suas relações. Tudo isso é
soma.
VP - O que significa
o modelo embriológico?
BOADELLA
- Todo estudante de medicina sabe que o corpo nasce de camadas
germinativas e o processo só termina quando a gente nasce. O modelo
embriológico nos dá um modelo muito simples de como a gente
se organiza (tripartido). Não só temos três correntes
de células, como uma corrente de energia, de potencial, uma corrente
mórfica, de formação, e uma corrente de afeto. O
embrião que está crescendo é sensitivo, ele sente
o meio ambiente.
E esses são os fundamentos
de estar vivo e da integração psicossomática. No
útero, temos o cordão umbilical e depois do nascimento uma
corrente de vida pelo sistema digestivo, que nos provocam sensações
na área do abdômen. A segunda corrente de vida, de afeto,
vai levar aos músculos, é a chamada corrente afetivo-quinestésica.
Toda vez que a gente samba, sabe o que isso quer dizer, pois o prazer
do movimento nos faz sentir nos músculos o que está fazendo.
E a terceira corrente é a sensorial,
vem pelos sentidos, é a extracepção, a percepção
do que vem de fora de nós. Iacov, um fisiologista russo definiu
as seguintes categorias: endocinéscio, relacionada aos movimentos
internos; mesocinésico, relacionada aos movimentos dos músculos
e telecinésico, que é a impressão do que vem de fora
pelos órgãos dos sentidos. E agora a neurobiologia moderna
está descobrindo que nós funcionamos dessa forma tripartida.
VP - Como esse conhecimento
teórico se reflete na prática terapêutica?
BOADELLA
- Para ajudar alguém fora do equilíbrio, precisamos reequilibrar
esses três sistemas: motor, de equilíbrio e sensorial. E
para isso foram criadas três técnicas: centering, grounding
e facing. Existe um fluxo de energia nos órgãos internos,
no cérebro intestinal, no sistema respiratório, no sistema
digestivo. Esse fluxo de energia se dirige em duas direções
básicas. Tomando a psicoperistalse como exemplo, um aumento dessa
carga energética pode levar a uma diarréia.
Ao contrário, quando há
emoções contidas demais, ocorre a constipação
intestinal. Então, o desequilíbrio pode tanto provocar um
fechamento, podendo tanto ter como conseqüência uma doença
psicossomática quanto conduzir a um derramamento e a um despedaçamento.
Isso ocorre no processo histérico. Em São Francisco, em
1973, eu não precisa pedir para as pessoas se deixarem levar, para
se soltar. Thimoty Larry e outros já diziam isso. Parte do centering
é não se deixar despedaçar, é manter contato
com sentimento, mas sem se deixar levar por eles.
VP - E como funcionam
o grounding e o facing?
BOADELLA
- O grounding também pode ser utilizado em duas situações,
com a pessoa hipertônica ou hipotônica. O hipertônico
denota rigidez, pode ser o workaholic, o homem máquina. O hipotônico
não consegue se levantar da cama de manhã, é uma
batalha, para ele tudo é demais, tudo colapsa e ele é vítima
do burnout, o estresse provocado pelas demandas do exercício profissional.
Os dois perderam a alegria do movimento e da vida. Já o facing
tem a ver com o foco.
Algumas pessoas estão tão
estreitas que não conseguem olhar à sua volta, desenvolvem
uma visão de túnel. Então, trabalhamos procurando
ampliar esse foco, para ir além da borda. Einstein, Reich, Freud
são exemplos de pessoa que foram além da borda, eles viram
para além do paradigma dominante. O cliente com foco estreito só
vê o próprio problema. Precisamos ajudá-lo a ampliar
a própria visão. O oposto, que olha para todos os lados,
é o caso do psicótico. Nele tudo entra e sai misturado e
a vida lhe parece louca porque ele está inundado de impressões.
Reich é alguém que poderia estar desse lado mais aberto,
mais louco.
VP - São dois
extremos. O que leva a esses desequilíbrios?
BOADELLA
- O trauma é o que leva a pessoa a congelar num desses dois extremos.
Podemos pensar na teoria da catástrofe, alinhada à teoria
do tempo. O tempo tem estados catastróficos e isso é paralelo
a nós. Um rio pode estar congelado ou inundar. Inundado, ele perde
seus limites de margem, congelado ele deixa de fluir. A saúde está
ligada à polaridade, não à dualidade. O saudável
se concentra na facilidade de trafegar entre essas duas polaridades. Podemos
pensar no hiperativo e no depressivo. Esses são dois extremos.
O impulsivo se move sem limites e
o compulsivo sem uma direção clara, pensando apenas no momento.
Um extremo é o apagão da consciência, o amortecimento
psíquico. Outro extremo é não conseguir esquecer,
sonhar a noite e não conseguir viver durante o dia porque estou
permanentemente nesse estado de coisas ruins. Há pouca memória
de um lado e memória demais do outro. Grounding, centering e facing
ajudam a reequilibrar, a fazer um zigue-zague entre esses dois estados.
VP - E como entra
o corpo nesse trabalho?
BOADELLA
- A cabeça é o órgão perceptivo,
se especializou nisso. Ao longo das costas, estendendo-se por pernas e
braços, estão os movimentos. A energia está organizada
nos órgãos respiratórios e em todos os órgãos
internos dentro do corpo. O entendimento dessa morfologia nasce da embriologia
e se desenvolve desde os primeiros dias de vida. Existem três pontes
somáticas dentro do corpo: a nuca, que faz a ligação
da cabeça com as costas, é a ponte do centering. O centro
da fala e da respiração está aqui e é fonte
entre o pensamento e o movimento.
A segunda ponte, entre sentimento
e pensamento, está na garganta (na fala está a via de aprendizagem
e a expressão dos sentimentos). O neurótico engole em seco,
ele engole, na verdade, o sentimento, por isso sua fala é sem emoção.
O histérico, ao contrário, grita. Ele precisa permitir o
trânsito entre cabeça e coração. A terceira
ponte, entre sentimento e ação, se encontra entre as costas
e o sistema respiratório. É o diafragma. Na esquizofrenia
existe a divisão do diafragma. Podemos ter muito sentimento e nenhuma
ação. Não consigo ter uma ação no mundo.
Ou eu prendo meu diafragma, endureço as costas e mergulho na ação,
sem sentir as conseqüências.
VP - Baseado nesses
conhecimentos, como o terapeuta conduz esse trabalho?
BOADELLA
- Se o terapeuta conseguir contatar o cliente, sua parte
saudável vai curá-lo. Os terapeutas têm sete maneiras
de chegar ao cliente e o cliente tem sete maneiras de chegar nele mesmo.
O movimento é uma dessas possibilidades e se você entrar
por ele ainda restarão outras seis. Mas uma coisa básica
da bioenergia é que o que serve para uma pessoa não serve
para outra. A integração leva à diferenciação.
É assim que fica claro que o que é bom para um pode não
ser para outro.